“Liz Bianchi”
A chuva se transforma em neve enquanto o céu escurece por completo.
Observo os flocos grossos caindo do outro lado da janela, formando um manto branco que começa a engolir a cidade.
— O que diz aí? — pergunto, vendo Ettore encarar a previsão do tempo com a expressão de quem mudaria o clima à força, se pudesse.
— Tempestade de neve — responde, finalmente levantando os olhos. — Vou continuar acompanhando as atualizações.
Caminho até a janela, sentindo um arrepio que não tem nada a ver com a temperatura.
O hotel é bem aquecido, mas enquanto observo a neve cair com uma constância teimosa, uma inquietação cresce em mim.
— Não parece que vai passar tão cedo — comento, colocando a mão no vidro gelado.
— A previsão indica que vai piorar nas próximas horas — diz Ettore, parando ao meu lado, mantendo uma distância segura. — Espero que não afete a feira amanhã.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, lado a lado, observando a paisagem que se transforma rapidamente em um cartão postal de inverno.
Mas ainda assim… algo não está certo. A neve cai com intensidade demais. O vento uiva como um lobo ferido.
Meu estômago ronca, quebrando o que parecia nossa preocupação conjunta.
— Acho melhor jantarmos — sugiro, me afastando da janela e da proximidade dele. — Antes que isso piore e não possamos sair do hotel.
Ettore assente, sem tirar os olhos da janela, como se pudesse fazer a tempestade recuar com a força da vontade.
Após trocar de roupa, saímos do quarto em direção ao restaurante. No elevador, o celular de Ettore vibra. Ele franze o cenho ao ler a mensagem.
— Mais algum problema? — pergunto, enquanto o elevador desce em silêncio.
— A feira vai adiar a abertura — responde, guardando o celular no bolso. — A tempestade está se intensificando mais rápido do que o previsto.
Solto um suspiro pesado, saindo do elevador. O que mais falta dar errado nessa viagem?
Quando chegamos ao restaurante do hotel, o ambiente está surpreendentemente cheio para uma noite de nevasca.
Hospedes como nós, provavelmente buscando abrigo do caos lá fora.
Nos sentamos em uma mesa perto da janela. A neve agora dança pelo ar, empurrada por um vento cruel. A paisagem desapareceu completamente sob um véu branco.
— Nunca vi uma nevasca assim — comento, após fazermos nossos pedidos.
— Eu já — Ettore responde, me surpreendendo. — Em Aspen, quando tinha doze anos. Fiquei preso em um chalé com meu pai por três dias.
Não consigo esconder a surpresa. Ettore raramente compartilha memórias familiares, especialmente comigo.
— Como foi? — pergunto, me inclinando um pouco, curiosa.
Ele dá de ombros, mas seus olhos se perdem por um momento.
— Foram os três dias mais longos da minha vida até então — admite, com um sorriso irônico. — Meu pai não era exatamente conhecido pela paciência. Nem pelas habilidades de entreter uma criança.
— Presos? — ela repete, e posso praticamente ver seu sorriso malicioso do outro lado da linha. — No mesmo quarto?
— Não começa, Giu. Não é como se tivéssemos planejado isso.
— Claro que não — ela diz, mas o tom entrega o que pensa. — Olha, tenta aproveitar a situação. Quem sabe ficar preso com ele não é exatamente o que vocês precisam para… derreter esse gelo?
Reviro os olhos, mesmo sabendo que ela não pode ver.
— Como estão as coisas por aí? — pergunto, mudando de assunto.
— Tudo sob controle. Estive no hospital hoje. Nenhuma mudança. Pode ficar tranquila.
Conversamos por mais alguns minutos antes de desligar.
Quando me viro, encontro Ettore parado perto da janela. As luzes da cidade se projetam em seu perfil, e ele parece um animal selvagem trancado em uma gaiola.
— Parece que nossa trégua está sendo testada mais cedo do que esperávamos — digo, me aproximando.
Ele vira o rosto para mim e, por um segundo, vejo algo nos olhos dele que não estava ali antes. Algo que quase me faz esquecer o frio lá fora.
— Podemos lidar com isso — responde, com a voz mais baixa do que o normal. — Somos adultos.
A neve continua a cair, implacável. Aqui dentro, o silêncio se estica entre nós. Não desconfortável, mas carregado.
Como se até ele soubesse que essa história de “somos adultos” nunca foi tão instável.

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