“Ettore Bianchi”
O quarto parece encolher conforme as horas passam. Lá fora, a neve cai implacável, transformando Zurique em uma cidade fantasma coberta de branco.
— Ettore — Liz me chama, fechando a revista que folheava distraidamente. Quando me viro para encará-la, ela continua: — O que faremos agora que a feira foi cancelada?
A encaro por um momento, avaliando as opções, mas ao olhar para ela assim, tão à vontade, minhas ideias não são as melhores. Que porra de tentação é essa?
— Podemos aproveitar o tempo para aprimorar a apresentação — sugiro, afastando os maus pensamentos.
Liz solta uma risada breve, sem humor.
— Claro, porque já não bastasse estar presa em um quarto, ainda precisamos continuar focados no trabalho — ironiza, levantando-se da poltrona em um movimento lento. — Sabe o que eu realmente quero agora?
— Me surpreenda.
— Um vinho para me aquecer — responde, caminhando até o minibar no canto da suíte.
Observo-a abrir uma garrafa de vinho tinto, servindo o líquido vermelho em duas taças.
— E esquecer o trabalho, a neve, o confinamento… — diz, me oferecendo uma taça enquanto segura a outra.
Minha esposa toca sua taça na minha, me encarando por um momento. Seu olhar reflete algo que não consigo decifrar.
— E de você — completa a provocação, dando um gole generoso em seu vinho.
Me permito um pequeno sorriso ao vê-la tão descontraída.
— Essa última opção vai ser tão fácil assim? — provoco, levando a taça aos lábios.
Ela se acomoda no sofá, cruzando as pernas antes de equilibrar a taça entre os dedos.
Há algo no modo como a luz suave do abajur ilumina seu rosto que me transporta para outra época, para outro lugar.
— Lembra da primeira vez que bebemos vinho juntos? — pergunto, sem pensar.
Liz me olha, surpresa pela menção direta ao nosso passado.
— Naquele restaurante perto da universidade — responde, após um momento. — Você derrubou metade da garrafa tentando abri-la.
— E você disse ao garçom que era uma técnica moderna de aerar o vinho — completo, sorrindo ao lembrar.
Liz também sorri — um sorriso genuíno que atinge os olhos. Um dos raros que vi em seu rosto desde que ela voltou para a minha vida.
— Ele fingiu acreditar, pobre rapaz.
Nos calamos por um momento, mas o vinho ajuda a dissolver o gelo que ainda resta. A primeira taça termina rápido demais. A segunda, só percebo quando começo a servir novamente.
— Era um Brunello, não era? — ela pergunta, voltando ao assunto enquanto encho sua taça.
— Sim — confirmo, surpreso por ela lembrar desse detalhe. — Um Brunello de 2008.
— Muito melhor que este — ela comenta, apontando o vinho na minha mão.
— Definitivamente.
Bebemos em silêncio, cada um mergulhado nas próprias memórias. A neve lá fora abafa os sons da cidade, como se estivéssemos numa bolha suspensa no tempo.
Liz gira o líquido na taça, observando como a luz atravessa o vinho. Quando seus olhos encontram os meus, há algo diferente ali. Algo mais suave. Quase vulnerável.


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