“Liz Bianchi”
A confissão dele quase me faz virar para terminar o que começamos, mas escolho ouvir a voz da razão. É mais seguro assim.
Qualquer atitude agora poderia nos levar a algo cujas consequências já conhecemos bem demais. E não estamos prontos para enfrentá-las.
A tempestade lá fora parece refletir o caos dentro de mim. Violenta. Imprevisível. Devastadora.
Quando o sol finalmente aparece, fraco e quase inexistente entre nuvens persistentes, acordo com a sensação de ter apenas cochilado.
Ettore já não está na cama. O som do chuveiro vem do banheiro, e aproveito sua ausência para organizar meus pensamentos.
Como devemos agir depois do quase beijo de ontem? Depois da confissão sussurrada na escuridão? Fingir que nada aconteceu parece a opção mais segura, embora, sem dúvida, a mais difícil.
Ele sai do banheiro alguns minutos depois, já vestido, o cabelo ainda úmido. Seus olhos encontram os meus brevemente antes de se voltarem para a janela.
— A neve diminuiu — comenta, como se quisesse apenas puxar assunto.
— O suficiente para sairmos daqui? — pergunto, sentando na cama.
— Ainda não — responde, checando o celular. — As estradas continuam bloqueadas. A previsão é de melhora só amanhã.
Mais um dia confinados nesta suíte. A ideia me provoca uma ansiedade que não sei nomear. Medo? Expectativa? Talvez ambos.
Me levanto, fingindo uma calma que não tenho. Pego minhas coisas e vou ao banheiro.
Enquanto escovo os dentes, meus pensamentos voam. A conversa de ontem, o vinho, o quase beijo… tudo continua vívido demais.
Ao sair, vejo Ettore sentado à mesa, trabalhando no notebook como se nada tivesse acontecido. Sempre irritantemente tranquilo.
A manhã passa em silêncio. Ele concentrado no computador; eu, desenhando, apenas porque não sei o que fazer com as mãos.
— Acho que deveríamos descer para almoçar — sugiro, cansada do confinamento. — Só para mudar de ambiente.
— Boa ideia — ele concorda, parecendo quase aliviado com a sugestão.
Nos arrumamos sem pressa. Afinal, além de nos evitarmos com maestria olímpica, o que mais poderíamos fazer?
Logo estamos no restaurante do hotel, que continua tão cheio quanto na noite anterior. Enquanto esperamos por uma mesa, meus olhos captam um rosto familiar.
— Não acredito — murmuro, surpresa. — É a professora Bellucci.
— Quem? — Ettore pergunta, seguindo meu olhar.
— Minha orientadora de graduação. Ela coordenava o departamento de design têxtil. Não a vejo há anos.
Uma mulher elegante, nos seus sessenta e poucos anos, levanta os olhos e me reconhece. Seu rosto se ilumina.
— Liz! — exclama, levantando-se. — Que surpresa maravilhosa!
— Professora Bellucci — respondo, sorrindo, antes de ser puxada para um abraço. — Não esperava encontrá-la aqui.
— Sou uma das palestrantes da feira — explica, desviando o olhar para Ettore. — E quem é este rapaz tão elegante?
— Este é Ettore Bianchi — digo, sorrindo. — Meu marido.
Continuamos o almoço em um clima leve, quase irreal. Como se, por algumas horas, fôssemos realmente um casal.
Quando nos despedimos da professora e voltamos para a suíte, o silêncio se instala — agora carregado de algo novo. Algo perigoso.
— Sua professora é encantadora — Ettore comenta, fechando a porta atrás de nós. — Exatamente como você a descreveu.
— Falei dela para você? — pergunto, surpresa.
— Muitas vezes — ele responde, com uma suavidade na voz que não ouço há anos. — Você a admirava muito.
O fato de ele lembrar de algo tão específico, algo que mencionei casualmente há tanto tempo, me deixa sem palavras.
— Ettore — começo, sem saber exatamente o que quero dizer.
— Liz — ele diz ao mesmo tempo, dando um passo em minha direção. — Sobre ontem à noite…
— Não precisamos falar sobre isso — interrompo rápido, o coração acelerando. — Aquilo foi um erro…
— Você sabe que não foi — ele rebate, mais próximo agora. — Porque se fosse, não estaria acontecendo de novo. Agora.
E ele está certo. A mesma tensão, a mesma gravidade impossível de resistir, nos puxa um para o outro. Como planetas presos em órbitas destinadas a se colidir.
— Ettore, não podemos — sussurro, mesmo enquanto meu corpo trai minhas palavras, inclinando-se em sua direção.
— Por que não? — pergunta, tão perto que sua respiração toca meu rosto. — Me dê um bom motivo, Liz.
E então seus lábios encontram os meus, e todos os motivos que me impediram de fazer isso ontem desaparecem.

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