A luz natural do escritório reflete nas amostras de tecido espalhadas sobre a mesa.
Cores, texturas e padrões se misturam em uma desordem criativa que só eu entendo. E que é linda do meu jeito.
— Este tecido seria perfeito para o casaco — comento, mostrando a amostra para Giulia.
— Talvez em outra cor — responde, franzindo o nariz. — Esse tom não conversa bem com o resto da paleta.
Estamos debruçadas sobre a mesa há horas, ajustando os detalhes da coleção.
Após a reunião de ontem, Paolo relutantemente deu sinal verde para avançarmos, embora continue tentando atrapalhar sempre que possível.
— Podemos tentar com o azul-petróleo — sugiro, pegando outra amostra. — Harmoniza melhor com…
Meu celular interrompe o raciocínio, vibrando insistentemente. Uma mensagem de Ettore.
“Almoço em 20 minutos. Te encontro na recepção.”
Não é uma pergunta. Nem um convite. É uma ordem disfarçada de informação.
— O que foi? — ela pergunta, notando minha expressão.
— Ettore me chamando para almoçar — respondo, mostrando a mensagem. — Como sempre, sem perguntar se estou disponível.
— O marido perfeito — ironiza. — Você vai?
— E tenho escolha? — rebato, largando o tecido. — O teatrinho conjugal vem sempre em primeiro lugar.
Solto um suspiro baixo e olho uma última vez para as amostras de tecido.
— Vamos resolver o resto quando eu voltar — digo, pegando minha bolsa. — Se conseguirmos finalizar hoje, posso apresentar ao Paolo amanhã.
— E ver a cara dele desmoronando quando perceber que somos boas demais? — ela ri. — Mal posso esperar.
Retoco a maquiagem rapidamente, pego o celular e sigo para a recepção. Ettore já está me esperando, irritantemente perfeito em seu terno feito sob medida.
— Está atrasada — comenta, mas sem a aspereza habitual.
— Três minutos não é atraso. É pontualidade italiana — rebato, seguindo-o até a saída.
Quando chegamos à calçada, o carro já nos espera. O motorista abre a porta, e entramos no banco traseiro.
— Para onde vamos? — pergunto, colocando o cinto.
— Tentarino — ele responde, sem desviar os olhos do celular.
Assinto em silêncio, observando a paisagem pela janela.
Desde os acontecimentos no escritório dele, mantemos uma distância cuidadosamente calculada. Educados, mas não próximos. Profissionais, mas não frios.
É um equilíbrio frágil. Como andar em uma corda bamba.
Chegamos ao restaurante em poucos minutos. Um lugar elegante e discreto, do tipo que atende à alta sociedade sem chamar atenção.
Somos conduzidos a uma mesa afastada, com vista para o jardim interno. Ettore puxa a cadeira para mim antes de se sentar.
— Sempre tão cavalheiro — comento, desdobrando o guardanapo.
— Apenas mantendo as aparências, esposa — responde, com um meio sorriso.
Depois que fazemos os pedidos, ele finalmente guarda o celular e me encara diretamente.
— Amanhã é o jantar de aniversário de Alessandro.
— Este é perfeito — Giulia exclama, segurando um vestido verde-esmeralda. — Elegante, discreto, mas vai fazer Ettore engasgar quando te vir.
— Não quero que ele engasgue — minto, com a cara mais lavada possível. — Só quero sobreviver à noite.
— Estou mais preocupada com sua querida sogra — ela comenta, enquanto experimento o vestido. — Ela vai estar lá, certo?
— Provavelmente — suspiro, olhando meu reflexo no espelho. — Com aquele desprezo impecavelmente disfarçado de educação.
— Pelo menos o vestido está incrível — minha amiga afirma. — Se ela te odiar, vai ser por pura inveja.
Sorrio com o comentário, girando para ver todos os detalhes.
O vestido é perfeito: valoriza minhas curvas sem ser vulgar e o tom combina com a minha pele como se tivesse sido feito para mim.
— Acho que vou levar este mesmo.
— Ótima escolha — ela aprova. — Agora, sapatos e acessórios.
Enquanto olhamos os saltos, a inquietação volta, insistente. Um nózinho no estômago só de pensar no jantar.
Estarei cercada de gente que provavelmente sabe, ou imagina, exatamente como nosso relacionamento terminou.
— E se for um desastre? — pergunto, segurando um par de sandálias prateadas. — E se Chiara decidir me humilhar na frente de todo mundo?
— Então, você manterá a classe, beberá champanhe e deixará Ettore lidar com a mãe dele dessa vez — ela responde, dando de ombros. — Além disso, você sobreviveu ao casamento. Comparado a isso, um jantar é fichinha.
Sorrio, concordando. Giulia tem razão, claro.
Sobrevivi ao caos do casamento, à viagem para Zurique, estou sobrevivendo ao homem que supostamente me odeia…
Um jantar com uma família que me ama tanto quanto ele? Isso deve ser o menor dos meus problemas.

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