Termino de passar o batom e encaro meu reflexo no espelho. As mãos descem instintivamente até o vestido enquanto sorrio, satisfeita com o resultado.
Agora que estou pronta, o vestido de alça larga, justo até os joelhos e com um corte impecável, parece ainda mais bonito. Destaca minhas curvas na medida certa: elegante, mas com intenção.
Respiro fundo, tentando acalmar os nervos. Um jantar familiar. Com a sogra que me odeia. O que poderia dar errado?
O som da porta que conecta nossos quartos se abrindo me pega de surpresa.
Ettore aparece no reflexo do espelho, impecável em um terno grafite. O cabelo penteado para trás realça ainda mais o azul-claro dos olhos.
Nossos olhares se encontram no espelho e, por um instante, o quarto inteiro para. Ele me observa em silêncio, os olhos percorrendo meu corpo com uma intensidade que ele nem tenta disfarçar.
Engulo em seco, ignorando o calor que sobe pelas minhas bochechas.
— Você está… — ele começa, mas hesita, como se buscasse a palavra certa.
— Apresentável? — provoco, tentando aliviar a tensão.
— Deslumbrante — corrige, a voz rouca, baixa. Então levanta a mão, revelando uma caixinha de veludo preto. — Queria te dar algo antes de sairmos.
Ele a abre devagar, revelando um colar delicado de esmeraldas e diamantes, que brilha sob a luz suave do quarto.
— É… lindo.
— Achei que combinaria com o vestido — diz, pegando o colar enquanto se aproxima. Seus olhos deslizam até meu pescoço. — Posso?
Assinto, afastando o cabelo para o lado. Ele se posiciona atrás de mim, e quando seus dedos tocam minha pele, um arrepio me percorre inteira.
— Perfeito — murmura ao terminar, ainda me encarando pelo espelho.
— Obrigada — consigo dizer, lutando para manter a compostura.
— Era da minha avó — revela, dando um passo para trás. — Ela vai estar lá hoje.
— Sua… vó? — repito, surpresa. — Mas ela... não mora na Sicília?
— Você acha que ela perderia o aniversário do filho mais novo? — Ele rebate, como se fosse óbvio.
Ótimo. Meu coração, que já estava acelerado por outros motivos, resolve disparar de vez. Só que agora não é só por causa dele, mas pela notícia.
Sofia Bianchi nunca soube do que houve entre mim e Ettore, o que faz sentido, já que mora longe e grande parte das notícias foi abafada.
Mas, pelo pouco que ouvi sobre ela, a simpatia nunca foi seu ponto forte. E delicadeza também não parece estar na lista.
Ou seja: mais uma Bianchi para se juntar à minha sogra e apontar que uma Montesi não combina com o brasão da família.
— Vamos — Ettore diz, interrompendo meus pensamentos.
Ele olha para o relógio e gesticula para a porta. Não precisa dizer nada para me lembrar de que já estamos atrasados demais para sua pontualidade perfeita.
Logo, estamos no carro. O silêncio habitual nos acompanha, mas, dessa vez, parece diferente. Menos tenso. Mais confortável.
Longos minutos depois, finalmente chegamos ao local do jantar.


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