Um silêncio constrangedor se instala.
O que posso responder? Que nosso casamento é apenas um contrato com data de validade? Que filhos nunca fizeram parte do acordo?
— Vovó — Ettore finalmente consegue dizer. — Não acha que é um pouco cedo para isso?
— Besteira! — Sofia rebate, com um gesto despreocupado. — Vocês são jovens, saudáveis e, pelo jeito como se olham, já devem estar praticando bastante.
Isabella se engasga com o vinho, enquanto Chiara parece horrorizada. Alessandro ri abertamente, completamente entretido pela situação.
Sinto meu rosto queimar como se tivesse sido jogada numa fogueira. E Ettore, surpreendentemente, não esconde o desconforto muito melhor do que eu.
— Além disso, estou ficando velha — Sofia continua, então seu olhar se fixa em mim. — Ou vocês têm algum problema em me dar um bisneto, querida?
Todos os olhares se voltam para mim. Inclusive o de Ettore, que parece tão curioso quanto os outros pela minha resposta. Não há escapatória.
— Claro que não — respondo, num tom baixo. — É só que… estamos aproveitando esse início de casamento. E tenho a carreira, os projetos novos na empresa…
— Espero que não esperem essa velha aqui morrer para decidirem isso — ela resmunga, insatisfeita.
— Nonna, você viverá mais cem anos — Ettore murmura, tentando encerrar o assunto. — Terá bastante tempo para aproveitar seus bisnetos. Não sou seu único neto, esqueceu?
— Mas é o mais velho.
A sobremesa chega, finalmente encerrando o assunto, quando Sofia se distrai explicando a receita siciliana para os outros convidados.
Alguns minutos depois, quando o jantar finalmente chega ao fim, Ettore e eu somos dois dos primeiros a se levantarem.
Nos sentamos em uma das poltronas, num canto mais afastado do salão, mas não demora para que Sofia se aproxime novamente.
Ettore e eu trocamos um olhar que resume o mesmo pensamento: estamos encrencados.
— Então, crianças — ela começa, sentando-se na poltrona à nossa frente. — Quero saber como vocês dois se conheceram.
Olho para Ettore, sem saber o que dizer. Qual versão devemos contar? A social, a ensaiada, ou a verdadeira?
— Na universidade — ele responde simplesmente.
Sofia revira os olhos, impaciente.
— Isso já ouvi, menino — ela diz, revirando os olhos. — Quero saber a história completa, os detalhes, não esse resumo sem graça que vocês contam para os jornais.
Ettore se mexe desconfortavelmente ao meu lado, atraindo minha atenção. Olho para ele e vejo o azul dos seus olhos escurecer levemente, como sempre acontece quando está perdido em pensamentos.
— Foi em um café — começo, surpreendendo a mim mesma com a vontade de falar. — Perto do campus.
Enquanto começo a contar, a memória surge em minha mente, tão vívida quanto no dia em que aconteceu…
“Bolonha, Itália — Cinco anos atrás”
A cafeteria está lotada, o que parece comum para essa hora da manhã.
Os pedidos são servidos lentamente, e, a cada minuto que passa, o horário da minha primeira aula se aproxima.
Ele abre a boca para responder, mas é interrompido por outro barista.
— Latte com caramelo para Liz Montesi!
O olhar dele muda instantaneamente. Por um momento, parece surpreso. Então, ele sorri como se estivesse se divertindo.
— Está explicado seu atrevimento — ele comenta, pegando o copo com seu nome. — Uma Montesi sempre se metendo onde não é chamada.
— E um Bianchi sempre achando que é melhor que todos. Clássico — rebato, caminhando para pegar meu café.
Quando passo por ele, seu perfume atinge meu nariz. Algo amadeirado e exclusivamente dele, que, irritantemente, é inebriante.
— Até amanhã, Montesi — ele diz, irônico, levantando seu copo de café.
— Duvido muito, Bianchi — respondo, me virando para sair, com a sensação de que acabei de começar algo que está longe de terminar.
****
Volto ao presente com o gosto agridoce daquela lembrança. Foi naquela manhã que minha vida começou a mudar.
— Então foi ódio à primeira vista? — Sofia pergunta, com um sorriso, encantada com a história.
— Não diria ódio — Ettore responde, mantendo o olhar fixo em mim. — Apenas… um mau começo.
— E como isso mudou? — Ela se inclina para frente, realmente interessada. — Como esse mau começo se tornou… isso?

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