“Ettore Bianchi”
Olho para Liz, me perdendo por um instante em seus olhos verdes enquanto me lembro do quanto foi difícil desfazer aquela má impressão.
— Persistência — respondo finalmente, me permitindo um sorriso. — E um resfriado.
Liz ri baixinho, provavelmente se lembrando daquela manhã. Sorrio um pouco mais.
— Um resfriado? — minha avó pergunta, franzindo as sobrancelhas.
Enquanto continuamos contando, deixo as memórias surgirem livremente pela primeira vez em anos…
“Bolonha, Itália — Cinco anos atrás”
Já faz duas semanas que essa garota atrevida começou a cruzar meu caminho diariamente. E, contra toda lógica, virei cliente fixo da mesma cafeteria só para vê-la.
Ridículo, eu sei. Mas o atrevimento dela parece ter trazido algo realmente interessante após quase três anos aqui, aguentando números e exigências do meu pai.
Na manhã de segunda-feira, chego como sempre, pego meu café e me sento na mesa perto da porta.
A ideia é ver Liz Montesi chegando com seu coque bagunçado, seus olhos desafiadores e a língua mais afiada da universidade de Bolonha.
Mas ela não aparece.
Quinze minutos se passam. Nada.
Trinta. Ainda nada.
No dia seguinte, repito a rotina. Mas o resultado é o mesmo. Liz simplesmente evaporou.
No terceiro dia, mesmo jurando que não me importaria com o sumiço dela, novamente vou para o café.
E é aí que a vejo.
Sentada nos fundos, quase escondida. Cabelos presos de qualquer jeito, nariz vermelho, olhos inchados. Doente. Claramente doente.
Peço meu café e, sem pensar muito, peço também um chocolate quente. Passo pelo balcão e vou direto até ela.
— Montesi — digo, colocando o copo à sua frente. — Parece que alguém precisa de algo mais forte que chá.
Ela levanta o olhar, surpresa.
— Está tentando me envenenar? — pergunta, com a voz rouca demais para soar ameaçadora.
— Se eu quisesse te matar, escolheria um método mais criativo — respondo. — O chocolate quente é para te ajudar a melhorar. Você não vai conseguir me provocar se estiver desmaiando por aí.
Ela tenta esconder o sorriso, mas falha.
— Senta aí — diz, indicando a cadeira à frente. — Estou fraca demais para te expulsar.
— Três dias sem insultar um Bianchi. Deve ter sido um desafio para você.
— Tortura psicológica — ela rebate. — Sentiu minha falta, é?
— Nem um pouco — minto descaradamente. — Só percebi que a cafeteria estava mais silenciosa.
Ela revira os olhos e toma um gole do chocolate.
— Você está parecendo um panda com febre, Montesi.
— De todos os animais, você escolheu o menos ameaçador, sério?
— Pandas são lindos — falo, sem pensar.
Ela me encara com aquele olhar que desarma. Sinto meu rosto esquentar de forma patética demais para um homem da minha idade.
— Você acabou de me chamar de linda, Bianchi?
— Quase três anos — respondo, olhando brevemente para Liz. — Até que fui aceito em Oxford e me mudei para Londres para fazer o MBA.
É uma meia verdade.
A parte que prefiro não explicar é que essa decisão só foi tomada depois de ver Liz nos braços de outro homem, alguns dias depois de, como o idiota que eu era, contei a ela que desistiria de Oxford por nós.
— E o destino cuidou de uni-los novamente — Sofia conclui, sorrindo enquanto nos observa. — Como sempre disse, algumas pessoas são simplesmente inevitáveis umas para as outras.
Alessandro finalmente chama minha avó, que se levanta, nos deixando sozinhos.
— Achei que você contaria o motivo do nosso fim — Liz comenta baixinho.
— Algumas verdades são só nossas — respondo, evitando seu olhar. — Mesmo depois de tudo.
Me levanto antes que o rancor fale por mim e acabe com a noite.
Caminho entre os convidados, fingindo calma, mas cada passo parece mais pesado do que deveria.
Algum tempo depois, uma mão toca meu braço, e quase agradeço pela distração. Até me virar e ver quem é.
Isabella.
— Ettore — ela chama, sorrindo. — Finalmente sozinho.
— Só estou pegando uma bebida, Isabella — disfarço, pegando duas taças de champanhe da bandeja do garçom.
— Achei que finalmente iríamos conversar um pouco. Especialmente agora que sua esposa parece meio… ocupada.
Não respondo, mas sigo seu olhar até Liz, que agora está do outro lado do salão, conversando com meu primo, Vicenzo.
Ela ri de algo que ele contou, e, por algum motivo, vê-la assim, tão relaxada com ele, me incomoda mais do que deveria.
— Você mal se afasta e ela já está rindo para outro homem — Isabella continua. — Algumas pessoas nunca mudam, né?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Comprada Pelo Meu Ex Bilionário