“Ettore Bianchi”
Encaro Liz por um tempo que parece uma eternidade, analisando cada contorno do rosto dela, enquanto as lágrimas escorrem livremente.
Essa confissão deveria me satisfazer. Era o que eu queria ouvir, certo? A confirmação de que eu não estava louco. De que o nosso relacionamento foi real para nós dois.
Mas só torna tudo mais confuso.
— Se me amava tanto, por que fez aquilo? Por que estava com ele?
Liz desvia o olhar, mordendo o lábio inferior. Um gesto que conheço bem demais. Ela está escondendo algo.
— Às vezes fazemos escolhas que não fazem sentido nem para nós mesmos — responde, quase num sussurro. — Decisões que parecem certas na hora, mesmo que depois… virem a pior lembrança da nossa vida.
— Isso não é uma resposta, Liz — rebato, seco. — Não quero filosofia barata. Quero a porra da verdade.
Ela abaixa a cabeça e enxuga as lágrimas, soluçando outra vez.
Mas não explica. Claro que não.
O silêncio dela só aumenta a raiva dentro de mim.
— Sabe qual é a pior parte disso tudo? — digo, sabendo que minhas palavras vão ferir como facas. — Se é que você realmente se arrepende, espero que conviva com o fato de que eu ia te pedir em casamento naquele dia.
Os olhos dela se arregalam, o rosto perde toda a cor. E então Liz desaba. Não tem outra palavra para descrever sua reação.
As pernas dela cedem e ela cai na poltrona, chorando como se alguém tivesse arrancado um pedaço dela.
— Eu não… — tenta dizer entre os soluços. — Sabia…
— Agora sabe — corto, frio. — Agora pode carregar isso também.
Ela finalmente me encara, o rosto devastado, e algo em mim quase vacila. Quase. Mas a lembrança do que vi naquele maldito jardim endurece meu coração de novo.
— Saia — peço, fechando os olhos por um segundo.
— Ettore…
— SAIA! — grito, socando a mesa de novo, incapaz de conter a raiva, a frustração. — Antes que eu diga algo que vá foder tudo de vez, se é que já não estamos fodidos o suficiente.
Liz se levanta num pulo, assustada com minha nova explosão.
Ela enxuga as lágrimas rapidamente, mesmo enquanto novas surgem, e caminha até a porta como se cada passo custasse um esforço imenso.
Antes de sair, para por um instante.
— Me desculpe — murmura, tão baixo que quase não ouço. — Por tudo.
Quando a porta se fecha, me deixo cair na poltrona, exausto. Passo a mão pelo rosto, tentando organizar o caos dentro da minha cabeça.
Nada disso encaixa. Tantas coisas não fazem sentido…
A forma como ela me evitou depois daquele dia. O olhar distante. A porta fechada na minha cara.
Nada daquilo combina com a mulher que acabou de me dizer que me amava com “cada pedaço do seu ser”. Que claramente continua me amando.

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