Mesmo diante do olhar repreensivo dele, me sirvo de mais uma dose, sentindo o álcool começar a nublar minha mente.
É mais fácil assim. Menos dor. Menos clareza.
— Você fala como se fosse simples — digo, depois de um longo silêncio.
— Sei muito bem que não é simples. Nunca foi — Max responde, inclinando-se sobre a mesa. — Mas você precisa decidir, Ettore. Porque esse limbo em que vocês estão? Uma hora vai engolir vocês dois.
— Eu só queria entender, Max — murmuro, com a voz embargada. — Só uma explicação. Uma porra de uma verdade. Não é pedir muito, é?
— Às vezes é — ele rebate, direto. — Principalmente quando envolve orgulho, vingança… e um passado fodido.
Fico em silêncio. O bar ainda ferve ao redor, mas pra mim tudo soa longe, como se eu não fizesse parte.
Como se nada mais me tocasse de verdade. Nada... exceto ela.
— Você acha que vale a pena tentar de novo? — pergunto, mais para mim do que para ele.
Max me encara por um tempo. Depois, dá um gole na cerveja.
— Isso só você pode saber. Mas uma coisa é certa, Ettore: ou você enterra o passado… ou ele vai enterrar vocês dois.
Reviro os olhos, cansado dessas análises.
— Está ficando filosófico demais para um bêbado como eu — murmuro, pegando a garrafa de novo.
— Eu não estou bêbado — ele diz, tirando a garrafa da minha mão. — Você está.
— Quando foi que você virou tão… chato e certinho? — pergunto, tentando em vão pegar o uísque de volta.
— Talvez seja a convivência com você, chefe — responde, já sinalizando para o garçom. — Agora, vamos para casa. Amanhã, você pode continuar se torturando, se quiser.
— Casa? — solto uma risada amarga. — Aquele lugar onde a mulher que está fodendo minha cabeça está agora? Prefiro dormir aqui mesmo, obrigado.
— Não seja idiota — ele rebate, já se levantando. — Vou te levar. Você mal consegue ficar em pé.
Tento protestar, mas ele já está pagando a conta. Minutos depois, estamos no carro dele, andando pelas ruas de Milão em silêncio.
Encosto a cabeça no vidro frio, vendo as luzes passarem como um borrão.
— O amor não devia ser tão complicado — murmuro, mais para mim do que para ele.
Max me olha pelo canto do olho.
— É exatamente por ser complicado que você ainda está nessa, meu amigo.
Não respondo.
Não há o que responder.
[…]
— Talvez ele não — respondo, passando a mão pelo rosto inchado. — Mas a Chiara faria qualquer coisa para me afastar dele novamente. Qualquer coisa para fazê-lo acreditar que é mentira.
Eles nem estavam em Milão quando tudo aconteceu… como justificar tudo sem provas?
— Seria a sua palavra contra a dela — ela diz, esboçando um sorriso confiante. — Mas, de repente, ele até pode acreditar em você.
— A Chiara me ameaçou, Giulia — murmuro. — E mesmo que ele fique do meu lado, não tenho como bancar as consequências se ela resolver cumprir a ameaça.
— Por que será que ela te odeia tanto? — ela pergunta, franzindo a testa. — Às vezes, não parece ser só porque ela queria que Ettore casasse com a queridinha dela. Parece que tem algo por trás dessa história.
Fico encarando minha amiga, vendo sentido nas palavras, mas antes que eu possa raciocinar direito, escuto vozes alteradas no corredor.
Reconheço o italiano péssimo de Max, tentando falar baixo, e a voz mais alta e enrolada de Ettore, claramente bêbado.
Me levanto rápido e Giulia vem atrás de mim. Quando abro a porta, dou de cara com os dois.
Max quase carrega Ettore pelo corredor, um braço passando pela cintura dele, enquanto meu marido mal consegue ficar em pé.
Ao me ver na porta, Ettore para. Os olhos vermelhos, cabelo bagunçado, gravata frouxa no pescoço. Nunca o vi assim. Tão… destruído.
Quando o olhar dele, meio perdido, encontra o meu, algo muda na expressão. Ele endireita a postura, como tentando recuperar a dignidade, e abre um sorriso amargo.
— Olha só quem está aí — diz, voz arrastada pelo álcool. — Minha adorável esposa. Mentirosa e traidora. E, pelo visto, trouxe reforços para me enlouquecer.

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