Congelo. Meu cérebro tenta entender o que está acontecendo, mas nada faz sentido.
Há pouco ele mal conseguia manter os olhos abertos, e agora… fala com clareza, como se nunca tivesse encostado num copo de whisky.
— Você… não estava dormindo — sussurro, sentindo meu coração acelerar.
— Aparentemente, não — ele diz, rouco, mas lúcido. — Por que não responde minha pergunta?
Engulo em seco, desviando o olhar.
Depois da nossa conversa, do jeito como ele me expulsou do escritório, acreditei que ele tinha desistido. Que voltaria à sua habitual frieza.
— Não é simples, Ettore — respondo, por fim, em voz baixa.
— Então simplifica para mim — rebate, os dedos ainda apertando meu pulso. — Estou bêbado, não burro. Você acabou de dizer que me ama… mas ainda não consegue me contar por que destruiu tudo?
Ele segura firme. Não com violência, mas com aquela força silenciosa que diz “não vou deixar você fugir de novo”.
E, ironicamente, fugir é exatamente o que eu mais quero fazer agora.
— Por favor, me solta — peço, puxando meu braço. — Você está apertando demais. Vai me machucar.
A mudança nele é instantânea. Os olhos se arregalam, como se tivesse levado um tapa.
Ele solta meu pulso na hora, sentando-se na cama, os olhos grudados nos meus.
— Desculpa — diz, claramente arrependido pela atitude. — Não queria te machucar. Só quero… entender, Liz.
Massageio meu pulso, mais por nervoso do que por dor.
Tudo mudou de repente. Não estou mais diante do Ettore bêbado e provocativo. Agora é o homem machucado, confuso, que só quer entender.
— O quanto você bebeu? — pergunto, estreitando os olhos.
Um meio sorriso puxa o canto dos lábios dele.
— O suficiente para ficar tonto, não o suficiente para apagar.
— Então você estava fingindo…
— Sim e não — admite, passando a mão pelos cabelos úmidos. — Digamos que aproveitei a deixa. Você sempre foi mais sincera quando achava que eu não estava ouvindo.
Abro e fecho a boca duas vezes antes de me levantar, indignada. Ele manipulou a situação para ouvir exatamente o que eu jamais diria se soubesse que estava consciente.
Ele ainda lembra que eu sempre falava quando achava que ele estava dormindo.
Foi assim que eu disse que o amava pela primeira vez. E, surpreendentemente, ele respondeu.
— Isso foi um golpe baixo, Ettore — murmuro, cruzando os braços para esconder o tremor do meu corpo. De indignação. De susto. — Até para você.
Levanto os olhos e encontro os dele. E, pela primeira vez em muito tempo, não vejo raiva. Vejo confusão, mágoa… e talvez até vulnerabilidade.
— E se tentássemos algo diferente? — pergunto, reunindo coragem. — Uma trégua.
— Já tivemos uma trégua em Zurique — responde, erguendo uma sobrancelha. — Não durou muito.
— Não como a de Zurique — explico, dando um passo hesitante em sua direção. — Uma trégua de verdade. Sem vingança, sem ressentimento, sem o peso do que aconteceu nas últimas semanas. Uma chance de reconstruir nossa confiança aos poucos. E talvez assim… as coisas finalmente se resolvam.
Ettore me observa em silêncio, como se analisasse cada palavra. Como se calculasse os riscos.
— Você não merece nada disso, Liz — diz, por fim.
A dor me aperta o peito e luto contra as lágrimas mais uma vez. Ele está certo, claro. Depois de tudo o que aconteceu, talvez eu realmente não mereça.
— Então eu não sei mais como provar que não sou sua inimiga. Ou como acreditar que posso te contar tudo sem me arriscar demais — digo, enfim, me virando para sair. — Boa noite, Ettore.
Me aproximo da porta, mas paro com os dedos na maçaneta quando ouço sua voz novamente.
— Espero não me arrepender dessa trégua, Liz.
Minhas pernas travam enquanto minha mente tenta processar o que acabei de ouvir.
— Vamos tentar do seu jeito — ele completa, as palavras saindo como se estivessem sendo arrancadas dele. — E reconstruir essa maldita confiança.

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