Meu estômago ronca pela terceira vez na última hora, protestando contra minha decisão de me esconder no quarto.
Suspiro e encaro o relógio na parede: uma da tarde.
Passei a manhã inteira aqui, saindo por cinco minutos para pegar um café na cozinha. Tudo para evitar encontrar Ettore depois da nossa conversa no meio da madrugada.
Afinal, o que eu diria? “Bom dia, como vai a ressaca? Lembra da trégua que propus quando você estava bêbado?”
É patético o quanto estou evitando o inevitável.
Resignada, deixo o quarto e desço as escadas em silêncio, como se estivesse invadindo a própria casa.
Na cozinha, encontro apenas a governanta, que guarda algumas compras.
— Boa tarde, Sra. Bianchi — ela cumprimenta, sorrindo calorosamente. — Estava prestes a subir com seu almoço. A senhora sumiu o dia todo.
— Desculpa pelo trabalho extra, Adeline — respondo, me sentindo culpada. — Acabei perdendo a noção do tempo.
Ela apenas acena, sem fazer perguntas. É uma das coisas que mais gosto nela: sua discrição impecável.
Adeline sabe, por motivos óbvios, a verdade por trás desse casamento. Afinal, alguém precisa cuidar dos nossos quartos.
— O Sr. Bianchi já almoçou? — pergunto, observando enquanto ela separa alguns legumes.
— Ele sequer saiu do quarto.
— Ettore não desceu nem para o café?
Ela balança a cabeça.
— Achei estranho — comenta, com um tom de leve preocupação. — O Sr. Bianchi nunca foge da rotina.
Arqueio as sobrancelhas, surpresa. Então, ele realmente bebeu mais do que devia ontem à noite, mesmo tendo aparentado algum autocontrole.
— Pode estar indisposto — acrescenta. — Notei que ele chegou… tarde.
Bêbado, ela quer dizer. Mas Adeline é educada demais para usar essa palavra.
— Vou levar o almoço para ele — me ofereço, surpresa com minha própria iniciativa.
— Seria muito gentil, senhora — ela responde, visivelmente surpresa também. — Estou preparando uma sopa leve. Ideal para quando alguém está… indisposto.
Vinte minutos depois, subo as escadas com uma bandeja equilibrada nas mãos: duas tigelas de sopa, pães frescos e suco de laranja.
Paro em frente à porta do quarto dele, hesitante.
E se ele me mandar embora? E se aquela trégua foi só o álcool falando?
Respiro fundo e bato.
Silêncio.
Na segunda vez, bato um pouco mais forte.
Nada.
Preocupada, abro a porta devagar.
O quarto está escuro, com as cortinas fechadas, bloqueando completamente a luz do sol. Pisco algumas vezes até finalmente enxergá-lo na cama, coberto até a cintura.
Me aproximo lentamente e coloco a bandeja na mesa de cabeceira antes de olhar para ele. Se não fosse pela respiração lenta e regular, eu teria pensado o pior.
— Ettore? — chamo, tocando seu ombro. — Trouxe algo para você comer.
Ele se mexe devagar, murmurando algo incompreensível. Os olhos se abrem lentamente, ainda confusos, até me reconhecer.
— Liz? — murmura, rouco de sono. — Que horas são?
— Quase duas da tarde — respondo, sorrindo com a surpresa no rosto dele.
— De nada — respondo, me sentando à sua frente.
É estranho como conseguimos agir com tanta civilidade, como se não tivéssemos quase nos destroçado emocionalmente algumas horas atrás.
— Como está a cabeça? — pergunto, tentando não demonstrar preocupação demais.
— Confesso que já tive dias melhores — admite com um meio sorriso.
— Quanto você… lembra de ontem? — finalmente toco no assunto.
Ele me encara e, por um segundo, penso que vai negar. Dizer que não lembra de nada. Quase me arrependo de ter aberto a boca.
— De tudo — responde, sem hesitar. — Inclusive da nossa conversa. Da trégua.
Assinto, aliviada por não termos que fingir que aquilo não aconteceu.
— O Max é o responsável por te manter bêbado ou por te fazer parar de beber? — pergunto pouco depois, tentando quebrar a tensão.
— Depende do momento — ele dá de ombros, sorrindo. — Max é ótimo em me impedir de fazer besteiras… depois que eu já fiz metade delas.
— Um amigo leal — comento, pegando um pedaço de pão.
— O melhor. Esteve comigo nos piores momentos, em Londres.
Hesito.
Parte de mim quer perguntar tudo, desvendar como foi essa vida sem mim. Mas a outra parte continua com medo de invadir esse território tão inseguro.
Não tenho tempo nem para pensar na próxima pergunta. Uma voz feminina, alta e conhecida, ecoa pelo corredor.
— Ettore!
Nos encaramos no mesmo instante.

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