Congelo ao reconhecer a voz. Aquele tom doce com sotaque siciliano inconfundível só pode pertencer a uma pessoa.
— Ettore! — ela chama novamente, agora batendo à porta.
Ettore se levanta num pulo, claramente surpreso com a visita inesperada.
— Fique aqui — murmura, ajeitando a calça de moletom antes de caminhar até a porta.
Permaneço sentada, tentando escutar a conversa. Pela porta entreaberta, vejo Sofia parada na entrada, tentando olhar por cima do ombro do neto.
— Nonna! O que faz aqui? — ele pergunta, sem esconder a surpresa.
— Vim ver como meu neto está, é claro! — ela responde, dando tapinhas no rosto dele. — Adeline me disse que você não desceu o dia todo. Está doente, querido?
Solto um suspiro aliviado. Ao menos estou aqui dentro, “cuidando” do meu marido indisposto, e não no quarto de hóspedes.
A imagem da esposa dedicada permanece intacta.
— Só acordei meio indisposto hoje — ele responde, passando a mão pelos cabelos.
— Indisposição ou ressaca? — pergunta, arqueando uma sobrancelha. — Posso ser velha, querido, mas ainda reconheço os sintomas, sabe?
Ettore solta uma risada baixa, sem jeito.
Sorrio ao observar a cena. Só Sofia consegue fazer Ettore ficar totalmente sem jeito, sem compostura…
— Podemos conversar na sala de estar? — ele pede. — Me dê alguns minutos para terminar de me vestir e desço.
— Claro, claro — concorda, novamente tentando olhar por cima do ombro dele. — A Liz está com você?
— Sim. Estávamos… almoçando.
— Sei… — ela diz, num tom descrente. — Bem, estarei na sala de estar. Terminem de… almoçar e me encontrem lá.
Sofia sorri maliciosamente e se afasta pelo corredor. Quando Ettore volta para o quarto, está com a expressão de quem preferia enfrentar um incêndio do que a própria avó.
— O que ela está fazendo aqui? — sussurro, olhando para a porta.
— Não faço ideia, mas vamos descobrir — responde, indo direto para o closet.
Alguns minutos depois, descemos as escadas e entramos na sala de estar.
Sofia está confortavelmente sentada em uma poltrona, tomando café como quem mora ali desde sempre.
— Finalmente! — ela exclama ao nos ver. — Pensei que tivessem recomeçado o “almoço”.
Sinto meu rosto queimar. Ettore me encara, se divertindo descaradamente com meu desconforto.
— Agora, me contem — começa, indicando o sofá à sua frente. — Como estão as coisas? O casamento está indo bem?
— Tudo ótimo, Nonna — Ettore responde, se sentando ao meu lado, perto o suficiente para nossos braços se tocarem. — Mas diga, o que te traz aqui?
— Não posso visitar meu neto favorito? — ela rebate, colocando a xícara na mesinha de centro. — Especialmente depois daquele jantar encantador?
— Claro que pode — respondo antes que meu marido seja indelicado. — É sempre um prazer recebê-la, Sofia.

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