“Ettore Bianchi”
Sofia se vira, assustada com nossa reação. Seu olhar alterna entre mim e Liz, surpresa com o tom urgente da nossa voz.
— O que foi? — pergunta, franzindo as sobrancelhas. — Aconteceu alguma coisa?
Respiro fundo, tentando me recompor rapidamente, enquanto Liz congela ao meu lado, os olhos arregalados como um cervo diante dos faróis de um carro.
— Nada, Nonna — respondo, forçando um sorriso tranquilo. — Só não quero que se preocupe com essas coisas. Por que não fica aqui com a Liz? Eu mesmo peço para a Adeline cuidar das suas malas.
Ela me encara com aquele olhar que conheço muito bem.
O mesmo olhar desconfiado que lançou quando quebrei um vaso veneziano e tentei convencê-la de que havia sido o cachorro.
— Você? — questiona, arqueando uma sobrancelha. — Desde quando se preocupa com isso, Ettore?
— Só não quero que se canse à toa — insisto, mantendo o sorriso.
Minha avó olha de mim para Liz, depois novamente para mim.
Por um momento agonizante, penso que ela vai insistir em subir, mas então dá de ombros e se acomoda novamente na poltrona.
— Tudo bem, querido — diz, se ajeitando. — Vai ser bom nós duas nos conhecermos um pouco mais.
Liz me encara, como se perguntasse silenciosamente o que vou fazer agora para resolver essa bomba. Passo a mão pelos cabelos e me viro para sair.
Não faço ideia. Mas vou dar um jeito.
Caminho até encontrar Adeline no corredor, organizando algumas flores num vaso.
Ela me olha e imediatamente percebo que já sabe exatamente o que está acontecendo. Como sempre.
— Precisa de algo, senhor? — pergunta, afastando as rosas com delicadeza.
— Adeline, temos uma… situação — começo, olhando para trás, me certificando de que estamos a sós. — Minha avó quer ficar no quarto ao lado do meu.
— O quarto da Sra. Bianchi — ela diz, num tom contido, captando perfeitamente o problema.
— Isso mesmo. Preciso tirar todas as coisas da Liz de lá antes que minha avó perceba. Vou tentar tirá-la daqui para ganharmos tempo, mas precisamos ser rápidos.
— Começarei imediatamente, senhor. Não se preocupe.
— Obrigado — digo, aliviado. — Não sei o que faríamos sem você.
Adeline assente com um leve sorriso e se afasta silenciosamente. Solto um suspiro baixo e volto para a sala de estar.
Quando entro, encontro minha avó contando alguma história enquanto Liz sorri, parecendo genuinamente interessada.
— …então ele subiu na árvore assim mesmo, mesmo sabendo que estava proibido de escalar qualquer coisa naquele verão — Sofia diz, gesticulando com entusiasmo. — E claro, quando meu marido chegou e viu Ettore pendurado feito um macaquinho, quase teve um ataque!
Liz ri, os olhos brilhando de um jeito que eu não via há muito tempo.
Por um instante, ela parece a mesma garota de anos atrás. A que me mostrou como era ser realmente feliz.
— Tudo certo, Nonna — digo, lançando um breve olhar para Liz. — Suas coisas já estão sendo levadas para o quarto.
— Ótimo! — ela responde, animada. — Vai ser maravilhoso passar esses dias com vocês.
Minha mulher assente, sorrindo, mas me encara com aquele olhar que grita: ok, quanto tempo mais preciso segurar essa encenação?
Uma ideia surge na hora.
Mantenho o sorriso enquanto vejo ambas saírem. Quando finalmente fico sozinho, solto um suspiro longo.
— Espero que dê tempo — murmuro, subindo as escadas.
Ao chegar em frente ao meu quarto, encontro Adeline entrando com algumas malas no closet.
— Como está indo, Adeline? — pergunto, observando-a trabalhar com a precisão de um relógio suíço.
— A Sra. Bianchi tem bastante coisa, pode demorar um pouco — diz, passando a mão na testa. — Mas logo o quarto dela voltará a parecer um quarto de hóspedes.
— Você é um anjo na minha vida, Adeline — digo, agradecido.
Ela sorri e, por um segundo, fico em dúvida se está rindo de mim ou para mim. Decido não perguntar.
Quando ela se afasta, olho ao redor. Algumas caixas estão espalhadas pelo chão, invadindo meu espaço.
Por semanas, mantivemos uma distância segura, com nossas vidas separadas por uma porta.
Agora, Liz estará aqui.
Usando meu banheiro.
Dormindo na minha cama.
Tomando mais espaço na minha vida.
E o pior?
Uma parte de mim… não está nem um pouco incomodada com isso.

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