Tento me concentrar na terceira história que Sofia conta sobre a infância de Ettore, mas minha mente insiste em viajar mais do que deveria.
Mais especificamente, para o quarto que agora divido com meu marido.
— Era a coisa mais lindinha, Liz! — Sofia diz, rindo enquanto se serve de mais vinho. — Ele, todo pequenininho, usando umas galochas vermelhas e dizendo que ia “trabalhar com o nonno”. Não conseguia nem carregar a maleta, coitadinho!
Ela gargalha, e eu acompanho, mas é mais automático do que sincero.
Porque a imagem que minha mente pinta não é do Ettore versão mini, todo fofo e inocente.
É do Ettore que estava na minha cama há duas noites. Do Ettore que vi sair do banho pela manhã.
Sinto meu rosto esquentar com os pensamentos e tento disfarçar com um gole de vinho, mas não adianta.
— Está tudo bem, querida? — Sofia pergunta, me olhando por cima da taça.
— Tudo ótimo! — respondo rápido demais, forçando um sorriso. — Só… imaginei meu marido de galochas. Difícil de visualizar.
— Acho que já chega de histórias, não acham? — Ettore intervém, claramente tentando salvar o que resta da própria dignidade.
Sofia abre a boca para responder, mas Adeline surge no momento exato.
— Trouxe a sobremesa, senhores — anuncia a governanta, colocando uma torta de maçã no centro da mesa.
Comemos entre conversas mais leves. Quando terminamos, Sofia se levanta com aquele brilho travesso nos olhos.
— Bem, já falamos demais por hoje — declara, lançando um olhar significativo para nós dois. — Vou deixar os pombinhos aproveitarem a noite.
Ela me dá um beijo na bochecha antes de se inclinar para fazer o mesmo com Ettore.
— E não se esqueça de usar aquela lingerie azul que compramos hoje, Liz — sussurra num tom nada sussurrado, audível do outro lado da mansão. — E não se preocupem com barulhos. Durmo como uma pedra.
Meu rosto esquenta instantaneamente. Tento responder alguma coisa, mas as palavras simplesmente evaporam.
— Boa noite, crianças! — Sofia conclui alegremente, como se não tivesse acabado de nos colocar na situação mais constrangedora do universo.
Ela pisca para mim antes de sair da sala de jantar, deixando um silêncio tenso no ar.
Ettore limpa a garganta, claramente tentando conter o riso.
— Então… lingerie azul?
— Nem comece — retruco, apontando o dedo para ele enquanto me levanto. — Isso é culpa da sua brilhante ideia de “compras”.
Ele se levanta também e me segue em direção às escadas, com aquela calma irritante de quem sabe exatamente o efeito que causa.
— Mas se quiser usar… — provoca, baixando o tom de voz perigosamente perto do meu ouvido — não vou reclamar de assistir.
— Só nos seus sonhos — murmuro, apressando os passos.
Quando chegamos ao quarto e Ettore fecha a porta atrás de nós, a realidade me atinge de novo.
Uma cama. Dois corpos. A última vez que dividimos um quarto foi em Zurique, e todos sabemos como aquilo quase terminou.
— Pode usar o banheiro primeiro — ele diz, indo em direção ao closet.
— Obrigada — respondo, pegando meu pijama e a necessaire com mais pressa do que o necessário.
— Eu não faço mais isso — murmuro, sem muita convicção.
— Duvido muito — ele diz antes de entrar no banheiro. — Mas vamos descobrir em breve.
A porta se fecha e eu me sento na cama, tentando não pensar demais no que ele acabou de dizer.
Fracasso total.
Porque agora a única coisa que minha mente projeta é a imagem dos dois naquela cama, como antes.
— Que Deus me ajude a aguentar essa tentação — murmuro, me deitando e puxando o lençol até o rosto.
Alguns minutos depois, ouço a porta do banheiro se abrir, mas não me viro. A luz se apaga e, logo em seguida, o colchão afunda ao meu lado.
Silêncio.
Meu coração dispara por absolutamente nada.
Ou por tudo.
Estamos dividindo a mesma cama, separados por menos de um metro de distância… e por um mundo de mágoas, tensões e desejos.
Fecho os olhos, fingindo que consigo dormir. Fingindo que não sinto o calor do corpo dele tão perto do meu.
Fingindo que não estou pensando em como seria usar aquela maldita lingerie azul.
Vai ser uma longa, longa noite.

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