Me viro para encarar Paolo, parado na porta com aquela expressão arrogante que sempre me dá vontade de jogar café na cara dele.
— Bom dia, Paolo — respondo, mantendo a voz calma apesar da irritação. — O que exatamente está acontecendo?
Ele entra na sala sem ser convidado, jogando uma pasta na minha mesa.
— O Sr. Takeshita recusou todos os designs — diz, parecendo satisfeito demais com a notícia. — Segundo ele, estão “ocidentais demais”. Falta compreensão da estética japonesa.
— E quando teremos a reunião para discutir uma nova abordagem? — pergunto, abrindo a pasta.
— Em meia hora — responde, consultando o relógio exageradamente. — Se não estivesse ocupada fofocando, já teria lido a notificação.
Giulia revira os olhos discretamente atrás dele, e eu preciso me controlar pra não fazer o mesmo.
— Estarei lá — corto, sem paciência para o teatrinho matinal.
Paolo hesita, como se esperasse que eu mordesse a isca. Quando percebe que não vou, dá de ombros e sai, lançando um olhar arrogante para Giulia.
— Como esse homem ainda não engasgou com o próprio ego? — ela comenta assim que a porta se fecha.
— Mistério da ciência. E da paciência — murmuro, folheando os designs rejeitados.
Giulia solta uma risada baixa, murmurando um “vou pegar café para você” antes de sair.
Sozinha, encaro a pasta aberta à minha frente, com projetos que parecem uma imitação superficial da estética japonesa. Não têm alma.
Enquanto observo os desenhos, traço mentalmente mudanças que possam realmente impressionar.
Isso agora é pessoal. Preciso mostrar para todo mundo, especialmente para o irritante do Paolo, que não estou aqui por ser esposa do chefe. Estou aqui porque sou ótima nisso.
Vinte minutos depois, entramos na sala de reuniões.
Ettore está sentado próximo a um homem japonês de meia-idade, provavelmente o Sr. Takeshita, e a uma mulher mais jovem, que imagino ser a tradutora.
Quando me vê, meu marido faz um leve aceno de cabeça, mantendo a postura profissional. Mas os olhos… transmitem algo que conheço bem demais.
Algo que me lembra, com detalhes demais, da nossa conversa no carro.
Ótimo. Da frieza que costumava me congelar ao brilho malicioso que agora me incendeia. Qual das duas opções é pior?
— Bom, agora que estamos todos aqui — Ettore começa, assim que todos se sentam — vamos discutir a situação com o Sr. Takeshita.
A tensão na sala é quase palpável. O Sr. Takeshita fala em japonês, pausando para a intérprete traduzir cada trecho para nós.
Enquanto ouço sua explicação sobre o motivo da rejeição, minha mente dispara. Então ele menciona “tradição e inovação” e, como um estalo, a ideia surge.
Pego o lápis quase sem pensar. Aquela centelha criativa, a mesma que sempre aparece quando estou prestes a quebrar uma regra, acende.
— Sr. Takeshita — me pronuncio assim que ele termina — se me permite, o que o senhor mais valoriza na sua marca?
Ettore diz algo ao Sr. Takeshita por meio da tradutora, provavelmente perguntando sua opinião. O japonês responde gesticulando na minha direção.
— Ele gosta da proposta — a tradutora diz — mas quer ver algo concreto, não só uma ideia no papel. Quanto tempo seria necessário?
— Normalmente, algumas semanas, mas…
Sou interrompida por uma nova fala do Sr. Takeshita. Mesmo sem entender japonês, percebo que ele não gostou da resposta.
— Dois dias — traduz a intérprete. — Ele quer ver, em dois dias, se essa é uma ideia viável ou só palavras bonitas.
Dois dias? Para redesenhar uma coleção inteira?
O pânico começa a subir, mas me esforço para manter a expressão neutra. Apenas assinto, firme.
— E ele quer que seja você, Sra. Bianchi, a liderar pessoalmente o projeto — a tradutora continua. — Disse que viu autenticidade no seu esboço. Algo que os outros não tinham.
— Faremos isso — Ettore afirma antes que eu possa responder. — A Sra. Bianchi terá todos os recursos de que precisar.
Meu coração acelera com o peso da responsabilidade. Quando olho para Ettore, vejo algo inesperado: orgulho.
Mas ao virar o rosto e cruzar com o olhar de Paolo, que praticamente grita “você vai falhar”, sinto um arrepio.
Por que tenho a sensação de ter cutucado um vespeiro?

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