Acordo lentamente, envolvida por uma sensação de aconchego que me faz sorrir sem perceber.
O rosto de Ettore está aninhado nos meus cabelos, sua respiração quente fazendo cócegas na minha nuca.
Seu braço repousa firme ao redor da minha cintura, me mantendo colada ao peito dele, como se, mesmo dormindo, ele temesse que eu fosse escapar.
Viro o rosto devagar e olho o despertador. Ainda faltam quinze minutos para tocar.
Deveria me levantar, revisar os últimos detalhes, me preparar mentalmente para uma das apresentações mais importantes da minha carreira…
Mas me permito ficar aqui mais alguns minutos, aproveitando esse raro momento de paz. Aqui, nos braços dele, o mundo parece menos assustador.
Fecho os olhos, tentando memorizar cada segundo. Não sei quando — ou se — isso vai acontecer de novo.
BEEP! BEEP! BEEP!
O som estridente do despertador nos faz saltar.
Ettore se mexe atrás de mim, o braço apertando minha cintura por reflexo, antes que ele desperte completamente.
Nossos olhos se encontram e, por um instante, nenhum de nós sabe como reagir. O cuidado, o beijo, dormir abraçados… tudo isso ainda parece terreno desconhecido.
— Bom dia — murmuro, tímida, sentindo meu rosto esquentar.
— Bom dia — ele responde, a voz rouca de sono mais tentadora do que deveria.
Ficamos nos encarando, como dois adolescentes que se beijaram pela primeira vez e agora não sabem o que fazer no dia seguinte.
— Pronta para o grande dia? — pergunta ele, finalmente, se afastando para levantar.
— Totalmente pronta — minto, porque ninguém nunca está realmente pronto para momentos assim.
Ettore assente, aparentemente satisfeito, e segue para o banheiro. Pouco tempo depois, é a minha vez.
Nos arrumamos em silêncio, trocando olhares pelo espelho — olhares que dizem mais do que qualquer conversa conseguiria.
É estranho como, em apenas alguns dias, dividir o mesmo quarto nos trouxe de volta uma rotina que parecia perdida no tempo.
Quando finalmente descemos para o café da manhã, encontro Sofia já sentada à mesa, bem animada para uma manhã de quarta-feira.
— Bom dia, crianças! — Sofia exclama, sorrindo calorosamente. — Que dia especial, não é, querida?
— Espero que sim — respondo, me sentando.
— Vai dar certo — Ettore diz, com uma convicção que me pega desprevenida. — Você é brilhante no que faz.
O elogio me desmonta. É direto, sem ironia ou encenação. Só… verdadeiro.
— Obrigada — murmuro, sorrindo como uma boba.
Sofia nos observa com aquele olhar perspicaz que só uma nonna experiente tem. Aposto que já está formulando teorias sobre nossos olhares e gestos.
— Vou torcer muito daqui — ela anuncia, batendo palmas animadas. — E espero que vocês comemorem direito quando voltarem. Quem sabe até esqueçam que essa velha está aqui e façam alguns barulhinhos no quarto.
— Nonna! — Ettore exclama, quase engasgando com o café.
Dou risada do jeito envergonhado dele e me esqueço do nervosismo por alguns minutos.
Mas, depois do café, ele volta com tudo. O nervosismo, claro.
O trajeto até a empresa é tranquilo. Ettore pergunta sobre os detalhes da apresentação, mostrando interesse real no projeto.
— Só estou dizendo que é estranho ver vocês dois agindo como… pessoas normais — ela dá de ombros.
Para meu alívio, o elevador para no nosso andar, interrompendo momentaneamente a conversa.
— Está nervosa? — ela pergunta enquanto caminhamos para minha sala.
— Estou oscilando entre “vou vomitar” e "posso conseguir isso” — admito. — Mas acho que é normal. Estou ansiosa para ver como tudo ficou.
— Os materiais chegaram cedo hoje, recebi a confirmação — diz, me acompanhando. — E quem assinou foi Paolo Rizzo. Às sete da manhã.
— Ele já estava aqui? — paro de andar, surpresa. — Às sete?
— É, eu também fiquei chocada quando vi — ela ri. — Parece que ele está mesmo levando isso a sério.
Chegamos à minha sala e, imediatamente, algo me chama atenção. A porta está entreaberta, e eu tenho certeza de que a fechei ontem à noite.
— Tranquei essa porta — murmuro, empurrando-a devagar.
Entro com o coração acelerado, vendo tudo fora do lugar.
Me aproximo e, com as mãos trêmulas, pego os rascunhos dos desenhos principais, aqueles que passei os últimos dois dias aprimorando.
Têm marcas de café por toda parte. Borrões que tornam alguns esboços completamente arruinados. Rasgos estratégicos que destroem horas de trabalho.
— Meu Deus — Giulia se aproxima, pasma diante da cena.
Passo as mãos pelos cabelos, o desespero subindo pela garganta. Dois dias garantindo que cada detalhe estivesse impecável.
E agora… agora está claro que alguém quer mesmo me ver falhar.

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