“Ettore Bianchi”
Mal me sento atrás da mesa e minha assistente já entra com o café matinal e a agenda do dia.
— Bom dia, Sr. Bianchi — ela cumprimenta, colocando a xícara à minha frente como de costume. — Trouxe seus compromissos do dia.
Balanço a cabeça, pego o café e me recosto na cadeira, tentando me concentrar nas palavras dela.
Mas não demora para que sua voz se torne distante, enquanto minha mente vagueia para algo bem mais interessante.
Para a noite passada.
Na massagem que fiz por impulso. No jeito como ela gemeu baixinho, relaxando sob meu toque.
No beijo carregado de lembranças. No corpo dela encaixado no meu enquanto dormíamos. Como se todos esses anos não tivessem passado.
Como se ela sempre tivesse pertencido ali.
E no sono que veio depois. Profundo, sem interrupções, sem pesadelos. Sem aquele peso no peito que tem me assombrado há anos.
Eu dormi.
Por causa dela.
E acordei… em paz.
— …confirmou presença, então podemos começar pontualmente às dez — minha assistente conclui, me trazendo de volta ao presente.
— Perfeito — respondo, fingindo que ouvi cada palavra. — Obrigado, Srta. Ferrero.
Ela assente e sai, me deixando sozinho com meus pensamentos inquietos.
Levo a xícara aos lábios, mas mal sinto o gosto do café. Tudo o que ocupa minha mente é a sensação de paz que senti ao dormir com Liz nos braços.
Uma paz que não sentia há anos.
Uma batida na porta interrompe meus devaneios. Max entra sem esperar permissão, como sempre faz.
— E aí, como está o nervosismo para o grande momento? — pergunta, se jogando na cadeira à minha frente.
— Que nervosismo? — respondo, realmente tranquilo.
Max me encara com as sobrancelhas franzidas, claramente surpreso com minha calma.
— Isso é… novo — comenta. — Considerando que essa apresentação pode ser decisiva para sua posição no conselho. Giorgio está praticamente salivando, esperando que algo dê errado.
— Liz sabe o que está fazendo — afirmo, tomando outro gole de café. — Ela sempre soube.
— Não vai querer se certificar pessoalmente de que está tudo pronto? — insiste. — Ouvi uns boatos no corredor sobre…
— Não — corto, deixando a xícara de lado. — Confio nela. Vi o quanto a Liz se dedicou a esse projeto.
— Certo… — murmura, visivelmente confuso com minha confiança cega. — Então nos vemos daqui a pouco, chefe.
Ele se levanta para sair, mas algo dentro de mim não consegue deixá-lo ir. A pergunta que tem me atormentado desde que acordei com Liz nos braços.
— Max — chamo, quando ele já está na porta.
— Sim?
— Ettore — ele cumprimenta, todo falsamente cordial. — Ansioso para ver o trabalho da sua… protegida?
— Esposa — corrijo, com o tom mais neutro que consigo, enquanto confiro discretamente o relógio.
— Claro, esposa — diz, mas o sorriso se alarga. — Espero que realmente tenha feito uma boa escolha. Ou acredito que teremos uma reunião extraordinária com o conselho amanhã.
— Isso seria interessante — murmuro, sem tirar os olhos da porta. — Uma reunião só para me parabenizar pelo contrato que vamos fechar hoje.
O sorriso dele vacila por um segundo. Giorgio finalmente se cala.
Confiro o relógio pela milésima vez. Dez e quinze. Agora, sim, começo a me preocupar.
Giorgio me observa, saboreando o meu gesto como quem assiste um castelo ruir. Como se estivesse vendo a prova de que eu mesmo amarrei a corda no pescoço e pulei.
E, por um segundo, me pergunto se não estou mesmo sendo ingênuo. Se esse atraso não é um aviso de que talvez eu tenha me enganado sobre ela.
De que confiar… foi um erro.
De que cogitar tentar de novo é o tipo de loucura que destrói, não cura.
Então, as portas se abrem, calando todos esses pensamentos.
Liz entra, segura, firme, com sua equipe atrás, pastas e amostras nas mãos, como se tivesse nascido para isso.
— Peço desculpas pelo atraso — diz, voltando-se para o Sr. Takeshita com um sorriso profissional. — Tivemos alguns ajustes de última hora, mas está tudo pronto para a apresentação.
Nossos olhares se cruzam e é impossível conter o sorriso que me escapa.
Ela conseguiu.

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