“Liz Bianchi”
Entrei na sala de reuniões com o coração acelerado e a sensação de que, por pouco, não coloquei tudo a perder.
Se não fosse meu hábito paranoico de manter tudo salvo em arquivos digitais, herança direta da sabotagem que sofri na faculdade, meu próximo passeio seria direto para o RH.
Minhas mãos ainda tremem enquanto coloco as pastas sobre a mesa. Duas horas de corrida contra o tempo, uma discussão tensa com Paolo…
Mas basta olhar para Ettore e tudo muda.
Ele sorri.
E, de repente, a tensão nos meus ombros desaparece.
Meu marido acreditou em mim. Mais do que qualquer pessoa nesta sala. Talvez mais do que eu mesma acreditei.
— Antes de começarmos — digo, sinalizando para que minha equipe se posicione —, gostaria de explicar a filosofia por trás deste projeto.
Giulia liga o projetor. Paolo começa a organizar as amostras na mesa. Quando nossos olhares se cruzam, noto o incômodo nos olhos dele. Escolho ignorar, por ora.
As primeiras peças surgem na tela: blazers com cortes clássicos, mas com detalhes sutis inspirados nos quimonos tradicionais.
— A proposta é honrar ambas as culturas sem desfigurar nenhuma delas — explico, observando o Sr. Takeshita se inclinar levemente, murmurando algo em japonês para a intérprete.
Paolo se aproxima, segurando uma das amostras, o profissionalismo vencendo o desconforto entre nós.
— Este tecido — diz, firme — mantém o caimento e a qualidade típicos da alfaiataria italiana, mas incorpora uma técnica japonesa de tingimento que cria essa textura única.
A intérprete traduz. O Sr. Takeshita toca o tecido com cuidado, como se estivesse diante de uma peça rara.
— Ma-kanzen — ele murmura.
— Ele disse “imperfeição perfeita” — a intérprete traduz. — É um conceito japonês sobre encontrar beleza na imperfeição intencional.
Sorrio discretamente. Faz sentido. Nosso projeto inteiro é sobre isso.
Continuo a apresentação, explicando cada peça, escolha e ideia.
Ao olhar para Ettore, vejo-o completamente focado, absorvendo cada palavra como se eu fosse a única pessoa na sala.
— Para a linha feminina — prossigo, trocando os slides —, criamos peças que conversam diretamente com a força e a delicadeza da mulher contemporânea.
A apresentação se estende por mais vinte minutos. Cada detalhe é explicado, cada escolha é justificada. Graças ao trabalho em equipe, minha confiança cresce a cada frase.
Quando termino, a sala mergulha num silêncio ensurdecedor.
O Sr. Takeshita fala com a intérprete, gesticulando em direção às amostras. Meu coração b**e tão forte que juro que vai explodir.
— Ele disse que… — a intérprete hesita, escolhendo as palavras com cuidado — é exatamente o que esperava sem saber que esperava. Que vocês conseguiram criar algo novo, respeitando o antigo.
Sinto os joelhos fraquejarem. A adrenalina ainda me percorre, mas agora é de puro alívio e triunfo.
— E ele gostaria de discutir não apenas uma parceria — ela continua —, mas uma linha completa. Tanto para o mercado japonês quanto internacional.
Uma. Linha. Completa.
Meus olhos procuram Ettore. Ele ainda sorri, mas agora, há orgulho ali.
Ettore Bianchi… está orgulhoso de mim?
Giorgio pigarreia, visivelmente desconfortável com o rumo inesperado da reunião.

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