Nina colocou o livro de lado, e olhando-o contra a luz, perguntou: — Gustavo, daquela vez em que você disse que queria ter filhos, você estava falando sério?
Gustavo ficou paralisado, piscou as longas pestanas como penas de corvo e disse, mordendo os lábios: — Eu não havia pensado direito, repensei o assunto. Ainda somos jovens, não temos pressa para ter filhos.
Então... antes ele estava realmente pensando em ter uma vida normal com ela.
O problema foi que a chegada repentina de Verônica o fez encarar seus próprios sentimentos de frente.
Era até bom. Os dois compartilharam sentimentos de verdade no passado, mesmo que por um breve período de tempo, e não parecia que três anos haviam sido em vão.
Nina abriu um sorriso de alívio: — Está bem.
O pomo de Adão de Gustavo não pôde evitar engolir em seco novamente; ele estendeu a mão e a abraçou: — Durma primeiro, eu vou resolver umas coisas do trabalho.
— Gustavo, você... tem tempo amanhã?
Gustavo ficou calado por um instante: — Tenho um compromisso amanhã.
— Tudo bem, já entendi.
Dois "tudo bem" seguidos fizeram Gustavo acreditar que Nina finalmente havia retornado àquela postura comportada e obediente de antes.
Ao apagar a luminária da parede, o homem se sentiu reconfortado ao observar o belo rosto adormecido de Nina.
Nos dias seguintes, Nina passava o dia fora e voltava tarde, sempre enfiada numa cafeteria, escrevendo as propostas de licitação.
Até Dona Odete achou estranho, e à noite avisou Gustavo: — Patrão, a esposa não tem ficado em casa nos últimos dias.
Gustavo não viu problema algum: — A amiga da esposa voltou de viagem a negócios, as duas devem ter saído juntas para fazer compras.
— Mas antes a esposa sempre cozinhava o jantar saudável para o senhor. E desde o casamento, nunca mais cozinhou.
Gustavo abaixou a cabeça, arrumando os punhos da camisa: — Que bom que não faz. Sou tão jovem que não preciso comer aquelas coisas.
Dona Odete quis continuar, mas Gustavo a interrompeu: — A partir de segunda-feira, Verônica começará a trabalhar no Grupo Mendes, vou deixar você aos cuidados do Léo.
Dona Odete arregalou os olhos: — A senhorita Verônica vai trabalhar no Grupo Mendes?
Aquela atrevida não estava satisfeita em tomar posse do patrão em casa e ainda queria fazê-lo na empresa? Queria mesmo destruir a família.

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