Lorena nunca gostou de hospitais.
O cheiro de antissépticos sempre a fazia lembrar de coisas que preferia enterrar no fundo da memória. Ainda assim, naquela manhã, a dor em seu estômago era forte demais para ser ignorada - ardida, persistente, como se algo dentro dela estivesse sendo lentamente corroído.
Ela não contou ao marido, Rafael Menezes, que viria ao hospital.
Não queria preocupá-lo.
Sabia exatamente como ele reagiria. Para qualquer dorzinha sua, Rafael mobilizava médicos, especialistas, exames caros demais, olhares atentos demais. Fazia questão de mostrar que nada no mundo era mais importante do que o bem-estar dela.
Lorena sorriu sozinha ao pensar nisso.
Ele sempre cuida de mim, pensou.
Desde que se mudara para a casa da sogra, três meses atrás, seu estômago não era mais o mesmo. A comida parecia pesar mais, as noites eram mal dormidas, e aquela dor insistente tinha se tornado parte da rotina. Ainda assim, ela preferiu ir sozinha. Era só um desconforto. Nada que justificasse um alvoroço.
Sentada na sala de espera, segurava a bolsa contra o colo como se aquilo lhe desse alguma estabilidade. Observava o movimento do hospital, as pessoas passando apressadas, e tentava se convencer de que sua vida estava exatamente onde deveria estar.
Um casamento sólido.
Um marido atencioso.
Uma família que, apesar das diferenças, ela aprenderia a conquistar.
Ela respirou fundo quando a dor voltou a apertar.
Levantou-se devagar, decidida a procurar o banheiro antes de ser chamada.
Foi então que ela os viu.
No corredor em frente ao setor de exames, Rafael Menezes estava parado, impecável como sempre, o terno caro moldando o corpo alto, o cabelo perfeitamente alinhado. Ao lado dele, Nina Alves - a viúva do irmão - segurava sua mão.
Mas não era apenas a mão.
A outra mão de Rafael repousava sobre a barriga levemente saliente de Nina, em um gesto íntimo demais, cuidadoso demais… familiar demais.
Lorena parou.
O mundo pareceu desacelerar, como se alguém tivesse diminuído o volume da realidade. As vozes ao redor ficaram distantes, abafadas, enquanto seus olhos se fixavam naquela cena que não fazia sentido.
Nina sorria. Um sorriso suave, quase tímido.
Seu marido se inclinava em sua direção, a testa encostando de leve na dela.
- Você tem certeza que ela vai aceitar? - a voz de Nina saiu baixa, preocupada demais para ser verdadeira. - Quando descobrir… que o bebê é seu.
Lorena sentiu o coração tropeçar dentro do peito.
Rafael não hesitou.
- Vai - respondeu, com segurança. - A Lorena ama crianças. Sempre amou.
Ele apertou de leve a mão sobre a barriga de Nina, num gesto possessivo.
- No começo ela pode ficar chateada - continuou - é natural. Mas vendo a criança… tudo muda.
Nina abaixou os olhos, fingindo hesitação.
- E se ela não conseguir? Quero dizer… deve ser difícil pra ela… por não poder ter filhos.
A mão de Rafael fez um carinho lento no ventre de Nina.
- Isso é justamente o motivo - disse, com uma calma que doeu mais do que qualquer grito. - Esse bebê vai ser uma compensação.
Compensação.
- Um filho meu - ele completou - é algo que ela vai acabar aceitando. Ela me ama demais.
Nina suspirou, como se aliviada.
- Então… você acha que ela vai se apegar?
- Vai - Rafael afirmou, convicto. - Não tem escolha. Uma mulher como a Lorena… quando segura um bebê no colo, ainda mais um filho meu, acaba se rendendo.

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