O banho foi longo.
Dante ficou mais tempo do que o necessário embaixo da água fria, tentando apagar o fogo que ainda ardia na pele. A lembrança do toque dela, do calor, da forma como os dedos pressionaram o abdômen dele - tudo ainda estava ali, gravado na memória.
Quando saiu do banheiro, vestiu uma calça de moletom e uma camiseta simples. Desceu as escadas com passos lentos, a cabeça ainda latejando, a ressaca teimando em não passar.
O cheiro de canela e cravo tomava conta da cozinha.
Lorena estava ali.
De costas para ele, o avental amarrado na cintura, as mãos ocupadas com algo sobre o balcão. O cabelo preso em um coque frouxo, algumas mechas soltas caindo sobre a nuca.
Dante parou na porta.
A cena era tão… doméstica. Tão normal. Algo que ele nunca teve.
- Bom dia - disse, a voz ainda um pouco rouca.
Lorena se sobressaltou, virando-se rapidamente.
- Bom dia - respondeu, o rosto levemente corado. - Eu fiz… quer dizer, eu lembrei que você gostava de bolo de especiarias.
Dante franziu a testa.
- Como você sabe disso?
- Nas poucas vezes em que te encontrei na família Menezes… - ela começou a explicar, cortando uma fatia e colocando no prato.
Ele sentou-se à mesa, os olhos fixos nela.
Ninguém nunca reparou.
Ninguém nunca se importou.
Lorena colocou o prato na frente dele e se sentou ao lado, as mãos inquietas sobre a mesa.
- Dante, eu queria me desculpar - começou, a voz mais baixa. - De verdade. Eu não devia ter feito aquela festa sem perguntar antes se você gostaria. Foi egoísmo meu.
- Lorena…
- Eu pensei que estava fazendo o bem - ela continuou, os olhos marejados. - Mas eu só pensei em mim. No que eu acharia legal. Não perguntei o que você queria.
Dante pegou a mão dela.
O toque foi suave, mas firme.
- Não precisa se desculpar.
- Mas…
- Foi a primeira vez que eu comemorei um aniversário.
Lorena congelou.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Lorena sentiu os olhos arderem.
- Dante… eu…
Ele soltou a mão dela e pegou o pedaço de bolo. Mordeu um pedaço, mastigou devagar. Os olhos se perderam na janela, onde o sol da manhã começava a esquentar o jardim.
- Eu gostei - disse, finalmente. - Da festa. De você ter se importado.
Ela não respondeu. Apenas esperou.
- Mas eu não sei como comemorar - continuou, a voz mais distante. - Nunca aprendi.
Lorena sentiu o peito apertar.
- Por que você nunca comemorou?
A pergunta saiu antes que pudesse conter. Ela hesitou, arrependida.
- Desculpa, você não precisa responder…
- Eu sempre fui o bastardo - Dante interrompeu, os olhos ainda fixos na janela. - Você sabe o motivo de todos me chamarem de bastardo? - ele perguntou, a voz mais baixa.
Ela balançou a cabeça.
- Nunca consegui que alguém me contasse.
Dante a observou por um longo segundo. Os olhos estavam distantes, perdidos em algum lugar que só ele podia ver.
- O dia do meu nascimento foi também o dia da morte da minha mãe - disse, finalmente. - Ela se chamava Júlia, a filha favorita de Jorge Menezes.
- Julia Menezes?
- Tudo o que ela disse foi que ele cuidasse de mim.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
- O velho nunca me perdoou - Dante continuou. - A filha favorita morreu ao dar à luz o filho do homem que a abandonou. Ele me culpou pela morte dela. Me criou por causa do pedido que ela fez, mas nunca escondeu o ódio.
- Dante…
- Ele me chamava de bastardo desde que me entendo por gente, porque eu era a prova viva do erro que a filha dele cometeu. A mancha na história perfeita da família.
Lorena sentiu as lágrimas escorrerem.
- Por isso eles me odeiam - ele completou, a voz mais baixa, quase um sussurro. - Para o velho, eu sou a lembrança ambulante do homem que destruiu a princesinha dele. O erro que ela cometeu. A consequência que ele não consegue perdoar.
Lorena limpava as lágrimas.
- E o resto da família? - perguntou, a voz igualmente baixa.
Dante a encarou, os olhos escuros, cansados.
- Para o resto da família, eu sempre fui o filho da favorita. Aquele que, se um dia o velho deixasse de me culpar pela morte dela, poderia se transformar em uma ameaça.
Ela não sabia o que dizer. Não havia palavras que pudessem consolar uma dor tão antiga.
Lorena se levantou, contornou a mesa e se sentou ao lado dele. Pegou a mão dele, os dedos entrelaçados.
- Eu sinto muito - disse, a voz falhando. - Por tudo que você passou. Por ninguém ter estado ao seu lado.
Dante a observou.
- Mas agora eu estou - ela completou. - Eu sei que a dor do seu avô ao perder a filha mais amada deve ter sido imensa… mas ele não poderia culpar um bebê por isso.
Ele fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, algo havia mudado.
- Obrigado - disse, baixo. - Pelo bolo. Pela festa. Por… estar aqui.
Lorena apertou a mão dele.
O sol entrava pela janela, iluminando a mesa.
E, pela primeira vez, Dante sentiu que talvez houvesse algo para comemorar.

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