O restante do fim de semana passou sem que ninguém percebesse.
A Nexus Tech estava em polvorosa. As luzes do andar da presidência não se apagavam, e os funcionários circulavam como zumbis - desgrenhados, olheiras fundas, café na mão. O lançamento do produto precisava ser antecipado, e a equipe trabalhava em ritmo de guerra.
Dante não saía da sala de reuniões.
Lorena trazia café, documentos, comida que ninguém comia. Ela mesma mal dormira, mas não reclamava. A sensação de estar fazendo algo com propósito - de ser útil, de fazer parte de algo maior - era uma sensação que ela não experimentava há muito tempo.
Foi nesse ritmo frenético que ela começou a notar algo diferente.
Clara e Theo estavam sempre juntos.
No início, Lorena pensou que era apenas o trabalho - a pressão do projeto, a necessidade de coordenar esforços. Mas, aos poucos, percebeu que havia algo a mais.
Os ombros quase se tocando quando olhavam a mesma tela. O jeito como Theo ria de algo que Clara dizia - um riso leve, diferente. O rosto de Clara, menos fechado do que o habitual, quase suave.
Lorena parou a alguns passos de distância, observando a cena.
- Você está me vigiando? - Clara perguntou, ao notar a presença dela.
- Estou admirando - Lorena respondeu, com um sorriso. - Vocês dois combinam.
Theo e Clara se entreolharam, um pouco corados.
- Não é nada disso - Theo desconversou, mas a rapidez com que desviou o olhar dizia o contrário.
- Claro que não - Lorena disse, rindo.
Os três ficaram em silêncio por um segundo, um silêncio que não era desconfortável, mas carregado de uma intimidade recém-descoberta.
- Vamos trabalhar - Clara disse, afastando-se.
Theo a seguiu, mas antes de virar a esquina, olhou para trás e sorriu.
Lorena ficou ali, pensando.
Eles combinam mesmo.
E, por um instante, esqueceu das próprias preocupações.
Naquela tarde, ela voltava da copa com uma bandeja de sanduíches quando ouviu vozes alteradas vindo da sala de reuniões.
- Não temos tempo para procurar investidores - Dante dizia, a voz cansada, mas firme.
- Então o que você sugere? - Theo perguntou.
- Vou vender cinco por cento das minhas ações.
O silêncio que se seguiu foi breve, mas carregado.

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