Nas duas semanas que se seguiram, Dante recebia elogios nas reuniões. Parabéns. Tapinhas nas costas. As vendas do novo sistema de segurança da Nexus Tech já ultrapassavam qualquer projeção - grandes empresas do país inteiro migrando para a plataforma, o setor de suporte mal conseguindo acompanhar a demanda.
E mesmo assim, à mesa do jantar, ele ficava olhando para o prato como se houvesse algo errado nele.
Lorena já começava a conhecê-lo bem.
A testa franzida quando achava que ninguém estava olhando. O olhar perdido no meio de frases pela metade. O silêncio nos momentos que antes eram de conversa.
Numa noite, depois do jantar, ela resolveu perguntar.
- Dante, você está escondendo alguma coisa?
Ele ergueu os olhos do prato.
- Não.
- Ultimamente você está sempre preocupado.
- Só o cansaço - disse, evasivo. - Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
Lorena não acreditou. Mas não insistiu. Sabia que, quando ele estivesse pronto, contaria.
Dias depois, o convite chegou. Theo o trouxe.
Ele entrou no escritório como sempre fazia, sem avisar, com a energia de quem já era dono do lugar antes mesmo de sentar. Jogou o envelope sobre a mesa na frente de Dante e cruzou os braços com um sorriso que misturava orgulho e provocação.
- Abre.
Dante olhou para o envelope. Depois para Theo.
- O que é isso?
- Abre e descobre.
Dante abriu. Leu. E colocou o convite de volta sobre a mesa com a mesma calma de quem descarta correspondência sem importância.
- Não vou.
Theo largou os braços.
- Como assim, não vai?
- Tenho coisas demais para resolver aqui.
- Dante. - Theo se inclinou sobre a mesa, a voz baixa como se o que viesse a seguir fosse óbvio demais para precisar ser dito em voz alta. - Eles não te convidaram pra sentar na plateia. Te querem no palco. Palestrante principal. Empresários do mundo inteiro vão estar naquela sala te ouvindo falar. E você tá aqui me dizendo que não vai? Você sabe o que isso significa pra Nexus Tech?
- A Nexus Tech está bem.
- Isso nos colocaria em um novo patamar, e você sabe disso.
Dante não respondeu. Apenas recostou na cadeira, o olhar perdido de quem está pensando em mais de uma coisa ao mesmo tempo e não quer falar sobre nenhuma delas.
Lorena estava na soleira da porta. Nenhum dos dois havia percebido, ela entrou sem fazer barulho, pegou o convite da mesa e leu em silêncio. O evento era na semana seguinte.
Theo a viu primeiro.
- Lorena. Fala alguma coisa pra ele, porque ele não tá me ouvindo.
Ela não respondeu a Theo. Olhou para Dante.
- Você precisa ir.
Dante virou o rosto para ela.
- Lorena…
- Não. - A voz dela era calma, mas firme. - Theo está certo. Isso é importante, e você sabe disso.
- Tenho coisas demais aqui.
- Quais coisas? - Theo perguntou, direto. - Me diz uma coisa que não pode esperar uma semana.
Ele ficou em silêncio.
Theo ergueu as mãos num gesto de rendição satisfeita e recuou um passo, como se soubesse que a batalha agora era de outra pessoa.
- Não quero deixar você sozinha - Dante disse, por fim, a voz mais baixa.
Lorena se aproximou da mesa. Colocou o convite na frente dele.
- Eu não vou ficar sozinha. Vou estar aqui, trabalhando, cuidando das coisas. - Ela o encarou. - E você vai estar lá, fazendo o que precisa fazer.
Ele a observou por um segundo longo demais para ser casual.
- Você quer que eu vá?
- Quero.
Theo tossiu discretamente num sorriso disfarçado.
Dante suspirou, passando a mão pelo cabelo. Olhou para o convite. Depois para ela.

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