O credenciamento ainda estava acontecendo quando Dante ouviu a voz.
- Cara. Não acredito.
Ele se virou. Daniel caminhava em sua direção com aquele sorriso de quem não mudou nada desde os vinte anos mais algumas linhas no rosto, o cabelo diferente, mas o mesmo de sempre.
- Dani. - Dante estendeu a mão, mas o outro ignorou e foi direto para o abraço.
- Quanto tempo, porra. - Dani recuou, avaliando com os olhos. - Você deu uma melhorada, hein. E esses músculos?
- Você não mudou nadinha.
- Mentira. - Dani riu, e virou para o lado. - Olha quem eu achei nossa estrela.
Marcos e Felipe estavam logo atrás, os dois com crachás de empresas diferentes, os dois com aquela expressão de quem também não esperava encontrar ninguém conhecido. Os quatro ficaram ali por um momento, naquele silêncio curto de quem tem anos de história e não sabe por onde começar.
Começaram pelo início, como sempre.
O jantar improvisado durou até tarde. Histórias da faculdade que ficavam maiores a cada copo. Nomes que ninguém via há anos. Erros que agora tinham graça. Dante riu, bebeu, ficou. Mas o pensamento estava em casa.
Lorena.
Ele olhou para o relógio.
Eram quase onze.
De volta ao quarto, gravata afrouxada, paletó jogado sobre a cadeira, ele abriu a videochamada antes mesmo de sentar.
Lorena atendeu após o segundo toque.
O cabelo ainda úmido, solto sobre os ombros. O robe justo, amarrado na cintura com aquele nó frouxo que ele conhecia bem o tipo que cedia com pouco esforço. A pele com aquele brilho suave de quem acabou de sair do banho.
Dante esqueceu o que ia dizer.
- Oi - ela disse, com o canto do lábio subindo, como se soubesse exatamente o que ele estava pensando.
- Você acabou de sair do banho.
Não era uma pergunta.
- Acabei. - Ela passou os dedos pelo cabelo molhado, devagar, displicente, como se não soubesse exatamente o que estava fazendo com ele. - Como foi o jantar?
- Lorena.
- Hm? - Os olhos dela eram a inocência em pessoa.
- Abre o robe.
Ela riu.
- Mas, eu acabei de colocar.
- Eu estou do outro lado do mundo há três dias.
Ela inclinou a cabeça, os olhos semicerrados, divertida com o poder que tinha sobre ele e completamente ciente disso.
- Três dias é muito tempo?
- É uma eternidade.
Lorena ficou em silêncio. Deixou o silêncio durar um segundo a mais do que o necessário - só para vê-lo esperar. Depois, devagar, os dedos foram até o laço do robe.
- Então olha bem - disse, a voz mais baixa. - Você vai ter que guardar isso na memória por mais alguns dias.
Os aplausos vieram em onda.
Dante subiu ao palco, cumprimentou o apresentador com um aperto de mão firme e se posicionou no centro. As luzes eram quentes. A plateia, vasta. Exatamente o tipo de ambiente que ele detestava e onde funcionava perfeitamente.
- Inovação - começou, a voz preenchendo o auditório sem esforço - não é sobre ter a melhor ideia. É sobre ter coragem de agir antes de estar pronto.
A sala ficou quieta. O tipo de silêncio que significa atenção.
- Quando fundamos a Nexus Tech, não tínhamos certeza de nada. Tínhamos um problema que precisava de solução e a recusa de aceitar que não havia caminho. Inovar é isso é construir a estrada enquanto você anda nela.
Ele fez uma pausa calculada. Deixou a frase assentar.
Foi nesse momento que o celular vibrou.
Ele ignorou. Continuou.
- O mercado de segurança digital mudou mais nos últimos três anos do que nos vinte anteriores. E as empresas que sobreviveram a essa mudança não foram as maiores. Foram as mais rápidas. As mais…
O celular vibrou de novo.
Uma vez. Duas. Três seguidas.
O padrão de Gonçalo.
Dante não parou de falar. Mas os dedos já tinham ido ao bolso, desbloqueando a tela pelo toque, inclinando o celular só o suficiente para ver a notificação sem que a câmera pegasse.
Na notificação estava visivel uma linha. Uma única linha de texto.
E o microfone escorregou da mão dele.

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