Lorena havia passado o dia inteiro examinando cada canto daquele lugar.
Não de forma óbvia havia aprendido, nos anos com Rafael, que ele lia comportamento com uma precisão que assustava. Então ela havia feito isso com cuidado.
Na frente da mansão, a praia começava a menos de cem metros. A areia clara, o mar se estendendo além do horizonte sem fim, a imensidão azul que em qualquer outra circunstância seria bonita e que agora era apenas um lembrete de que não havia para onde ir. Algumas casas menores ficavam espalhadas ao longo da orla, discretas, bem cuidadas, o tipo de estrutura que servia de alojamento para funcionários. Lorena imaginou que Nina estava em uma delas.
Os funcionários haviam sido instruídos com precisão cirúrgica.
Um bom dia pela manhã para o homem que limpava o corredor. Silêncio. Uma pergunta sobre as horas para a mulher na cozinha, porque sem relógio e sem celular o tempo havia virado uma coisa estranha e imprecisa que ela media apenas pela luz entrando pelas janelas. . Nenhum dos dois havia respondido. Nem um aceno, nem um olhar. Passavam por ela como se ela fosse parte da decoração, e Lorena havia entendido rapidamente que aquilo não era descaso, era uma ordem.
Rafael havia construído um silêncio ao redor dela.
Nos fundos da mansão, separada da construção principal por um caminho de pedras, havia uma horta. Canteiros bem cuidados, fileiras organizadas de temperos e hortaliças, a terra escura e úmida com o cheiro de algo vivo que contrastava com tudo ao redor. E além da horta, a menos de cinquenta metros das últimas fileiras de tomate - a mata começava.
Lorena havia reparado nisso pela manhã, quando Rafael abriu as cortinas com aquele gesto largo de quem apresenta um paraíso.
Ela não havia olhado para a mata diretamente. Havia deixado os olhos passarem por ela como passam por qualquer coisa sem importância - a parede, a janela, as árvores lá fora. Havia mantido o rosto calmo, a respiração regular, as mãos quietas sobre a mesa do café da manhã.
Por dentro, estava contando a distância.
A horta. A mata. Cinquenta metros de terra aberta entre uma coisa e outra, e além das árvores, ela não sabia. Mais ilha, provavelmente. Mais mata. O mar em algum ponto. Mas havia mata entre ela e Rafael, e isso era mais do que ela tinha agora.
Agora tinha um nome para a possibilidade.
- Eu quero sair um pouco - ela disse, no fim da tarde, quando a luz havia virado dourada e o calor começava a ceder. - Vou colher alguma coisa fresca na horta.
Rafael a olhou por cima do laptop.
- Na horta?
- Quero cozinhar alguma coisa. - Ela encolheu levemente os ombros, o gesto casual de quem está se resignando. - Espairecer.
Ele sorriu.
Era o sorriso de quem vê exatamente o que quer ver.
- Vou pedir para alguém te acompanhar.
Rafael digitou algo no celular sem pressa. Lorena esperou, os olhos no jardim pela janela, o rosto composto.
A porta lateral abriu em menos de um minuto.
O garoto que apareceu tinha no máximo dezenove anos, alto, ombros largos que ainda não haviam decidido completamente a forma, o rosto com aquela expressão fechada de quem recebeu instrução clara e não pretende sair dela. Ele a olhou uma vez, rápido, avaliador, e depois desviou o olhar para algum ponto neutro ao lado dela. Um gesto com a mão indicou que ela podia ir.
Lorena foi.
Lorena começou a caminhar entre os canteiros devagar.
Manjericão. Alecrim. Tomate cereja nas hastes. Coentro. Ela passava os dedos pelas folhas como se estivesse realmente interessada, colhendo aqui e ali, o cesto no braço, o rosto relaxado.
Relaxado por fora.
Por dentro ela estava mapeando cada centímetro daquele espaço.
Um segundo guarda estava na praia e ela havia calculado a distância. Longe o suficiente. Distraído com algo que ela não conseguia identificar de onde estava, mas que havia tirado os olhos dele da horta.
Rafael estava dentro da mansão.
Ela conseguia vê-lo através das paredes de vidro do chão ao teto enquanto caminhava entre os canteiros ele permanecia sentado, parado, os olhos nela. Seguindo cada movimento dela.
Lorena colheu um ramo de alecrim sem pressa.
A mata ficava a menos de quinze metros.
Quinze metros de terra aberta entre ela e as árvores. Ela havia medido com os olhos três vezes diferentes, de ângulos diferentes, tentando ser casual o suficiente para que Rafael não percebesse o que estava fazendo.
O celular de Rafael tocou.
Ela ouviu, abafado pelo vidro, mas ouviu. Viu a silhueta se mover, virar de lado, depois dar as costas completamente para a janela.
O coração disparou.
Agora não. Ainda não. O guarda.
Ela respirou. Continuou andando entre os canteiros. Parou perto de um arbusto baixo de tomilho que ficava justamente na direção oposta ao segundo guarda na praia.
- Com licença. - Ela virou para o guarda com um sorriso levemente constrangido. - Você consegue me ajudar a colher isso aqui? Não quero sujar as mãos na terra, o canteiro está muito molhado.
O guarda hesitou.
Olhou para ela. Olhou para o canteiro.
- É só um segundo - ela disse, o tom levemente entediado, levemente mimado, o tipo de voz que havia aprendido a usar quando precisava que alguém fizesse algo sem pensar demais.
Ele se abaixou.
A árvore era larga, antiga, os galhos começando a uma altura que exigiria esforço. Lorena não pensou mais do que um segundo. Colocou o pé na primeira saliência da casca, os dedos procurando apoio, e começou a subir.
Não havia subido em árvore desde os doze anos, na casa dos avós no interior. O corpo lembrava mais do que ela esperava, o equilíbrio, a distribuição do peso, a forma de mover um membro de cada vez sem balançar o que já estava firme. Ela subiu até o segundo galho largo, depois o terceiro, até estar alta o suficiente para que as lanternas lá embaixo não alcançassem.
Parou.
Se achatou contra o tronco, as pernas enroladas no galho, os braços abraçando a casca. A folhagem ao redor era densa sombra sobre sombra, o escuro da noite multiplicado pelo verde espesso das copas.
As vozes chegaram.
Duas lanternas varreram a base da árvore. Lorena fechou os olhos por instinto como se isso pudesse ajudar, como se não ver significasse não ser vista. Prendeu a respiração até os pulmões arderem.
Os feixes de luz passaram.
Continuaram adiante.
Ela soltou o ar devagar, os braços tremendo do esforço de ficar imóvel. A casca da árvore estava áspera contra a bochecha. Lá embaixo, as vozes foram ficando mais distantes.
Lorena ficou onde estava.
Não havia plano. Nunca havia tido ela havia saído por impulso, criado uma oportunidade do nada e mergulhado nela antes que o medo pudesse argumentar o contrário. E agora estava pendurada numa árvore no escuro de uma ilha no meio do oceano, sem telefone, sem direção, sem nada além da certeza absoluta de que preferia passar a noite ali do que voltar para dentro daquela mansão.
Preferia qualquer coisa.
Ela encostou a testa na casca áspera e esperou.
Do outro lado da mansão, numa das janelas da casa de hóspedes, Nina observava.
Havia visto Lorena entrar na mata. Havia visto o guarda se levantar tarde demais, havia visto a confusão se instalar no jardim, havia visto Rafael sair pela porta lateral com os olhos que ela conhecia bem o escuro total, a fúria contida.
Os guardas correndo em direção à mata.
Ela pousou a mão no ventre.
E ficou em silêncio.
Se Lorena não voltar, o pensamento chegou frio e claro, como todos os seus pensamentos as coisas ficam mais simples. Um filho. A família Menezes. Rafael sem a obsessão que o consome.
Ela se afastou da janela.
E foi se deitar.

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