O sol já estava alto quando o cheiro de café chegou ao quarto.
Lorena havia ficado acordada a noite inteira. Ou quase em algum momento antes do amanhecer o corpo havia cobrado seu preço e ela havia caído num sono raso, cheio de sobressaltos, do qual acordava a cada ruído novo. O som das ondas, que não parava, havia deixado de ser paisagem e virado tortura.
Rafael não estava mais na cama quando ela abriu os olhos.
Ela ficou imóvel por um segundo, ouvindo. Vozes na cozinha, ele e alguém, provavelmente um dos homens. O cheiro de café ficou mais forte. Ovos. Pão tostado. O absurdo doméstico daquele cheiro num lugar como aquele fez o estômago de Lorena revirar.
Ela se sentou devagar na beira da cama.
A janela enorme ainda estava lá. A praia, o mar, o sol de manhã que em qualquer outra circunstância seria bonito. Ela procurou com os olhos qualquer coisa, uma embarcação, qualquer sinal de que havia um mundo além daquela ilha.
Havia apenas água.
- Bom dia, amor.
Rafael apareceu na porta do quarto com uma bandeja nas mãos e aquele sorriso, o sorriso que ela havia amado um dia e que agora tinha o efeito de um alarme disparando no fundo do peito.
Ele entrou como se fosse a coisa mais natural do mundo, abriu as cortinas com um gesto largo, deixando o sol invadir o quarto, e se virou para ela com a satisfação de quem está exatamente onde quer estar.
- Vem, o café da manhã está pronto.
Lorena o seguiu porque não havia alternativa.
A mesa estava posta com um cuidado que gelava, frutas cortadas, sucos, ovos, pão fresco, uma jarra de café fumegando no centro. Rafael havia cozinhado. Ou mandado cozinhar. O resultado era o mesmo a performance de uma normalidade que não existia.
Ele puxou a cadeira para ela.
Lorena sentou.
- Acho que vi alguém ontem - disse, antes que ele se acomodasse. - Enquanto não estava completamente consciente. Acho que era a Nina.
Rafael não desviou o olhar enquanto servia o café.
- Era. - A voz era leve, casual, como quem confirma algo sem importância. - Ela está numa das casas de hóspedes.
- Rafael…
- Não se preocupe, ela não vai aparecer na sua frente. - Ele colocou a xícara à frente dela. - Sei que você ficaria brava. E assim que o bebê nascer ela some da nossa vida para sempre. Simples.
Lorena respirou fundo.
- Rafael. - Ela escolheu as palavras com cuidado, o tom neutro, o tipo de voz que se usa com alguém que está à beira de um precipício. - Você precisa pensar no que está fazendo. Isso é sequestro. Você está segurando duas mulheres contra a vontade numa ilha isolada, uma delas grávida. Isso não tem volta. Você vai…
- Come. - Ele empurrou o prato de frutas em direção a ela com um sorriso paciente. - Você não comeu nada desde ontem.
- Não estou com fome.
- Lorena.
O nome saiu com uma entonação específica. Não era ameaça aberta, era o aviso de que a conversa tinha um limite e ela estava se aproximando dele.
O beijo veio antes que ela pudesse recuar - a boca dele sobre a dela, forçado, pesado, sem espaço para recusa. Ela se debateu, as mãos empurrando o peito dele com toda a força que tinha, a cadeira raspando no chão.
Ele se afastou.
Ficou olhando para ela.
Os olhos estavam injetados. A máscara da calma havia rachado por um segundo - só um segundo - e o que havia por baixo era algo que Lorena reconheceu com um frio que desceu pela espinha.
Depois o sorriso voltou.
Diferente. Mais frouxo. O de quem está se convencendo de algo enquanto fala.
- Tudo bem. - Ele voltou para a cadeira como se nada tivesse acontecido, pegou a xícara de café, bebeu um gole. - Eu sei que errei. Eu sei que por isso você fez todo esse escândalo. - Uma pausa. - Mas você precisa se acalmar logo, Lolô.
Lorena estava imóvel, os dedos apertados na borda da mesa.
- No fundo - Rafael continuou, olhando para ela com uma expressão quase divertida - você é tão ciumenta quanto eu. Eu sei disso. Você sempre foi. É por isso que reagiu assim.
Ele colocou a xícara na mesa.
- Eu conheço você melhor do que você mesma.
Lorena não respondeu.
Porque ela já tinha entendido, o tempo que passou longe dele só a fez vê com clareza o que ela tentou fingir durante todo o tempo que o conheceu, o que ela queria não mudava nada. Rafael não estava tendo uma conversa estava representando uma peça que já havia escrito, onde ela tinha um papel que não havia escolhido, e qualquer fala fora do roteiro seria ignorada ou reescrita até caber na história que ele precisava acreditar.

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