O jato tocou a pista da ilha pela segunda vez naquela manhã.
Lorena olhou pela janela oval enquanto a aeronave desacelerava. A ilha à luz do dia era diferente, a mata que havia sido escuridão e terror nas últimas horas aparecia agora verde e densa sob o sol, quase bonita se ela conseguisse esquecer o que havia acontecido dentro dela.
Não conseguia.
A rampa abriu.
Alexandre estava na pista.
Lorena o viu antes de terminar de descer a rampa e parou por um segundo involuntário - havia algo naquele homem que puxava o olhar sem que ela soubesse explicar o quê. A postura. A linha da mandíbula. A forma como ficava parado com os braços levemente afastados do corpo.
Ela virou o rosto para Dante.
- Ele é...
- O meu pai - Dante disse, antes que ela terminasse. Simples. Sem elaborar.
Lorena olhou de um para o outro por um segundo o mesmo ângulo do rosto, os mesmos olhos escuros com vinte e cinco anos de diferença entre eles e havia mil perguntas que queriam sair ao mesmo tempo.
Nenhuma saiu.
Porque foi nesse momento que ela viu a maca.
Dois homens com roupas camufladas carregavam uma estrutura improvisada vinda da direção da mansão, uma porta larga sobre apoios, coberta com lençóis. Nina estava deitada sobre ela com as feições distorcidas, as mãos fechadas em punho nas laterais, o corpo inteiro tenso contra uma contração que claramente não estava pedindo licença.
Lorena desceu o resto da rampa.
- Como ela está? - Dante chegou ao lado de Alexandre, a voz direta.
- Complicando. - Alexandre falou baixo, o olhar indo para a maca. - As contrações estão muito próximas e ela perdeu muito líquido. Os homens fizeram o que puderam mas não temos ninguém com preparo para isso.
Lorena já estava ao lado da maca.
Nina estava pálida, o rosto transparecia dor e não era a performática que usava quando precisava parecer frágil, mas a palidez real, crua, de quem está com dor há horas e já não tem energia sobrando para mais nada. Os dentes cerrados. Os olhos fechados.
Quando os abriu e encontrou Lorena, algo atravessou o rosto dela rápido, complexo, sem nome fácil.
Lorena não comentou.
- Já tem uma equipe médica esperando em solo - disse, a voz calma e direta. - Você vai no jato agora.
Nina abriu a boca. Outra contração chegou antes das palavras e ela voltou a cerrar os dentes, a respiração saindo pelo nariz em ondas curtas e controladas a única coisa que ainda conseguia controlar.
- Embarquem ela logo - Lorena disse, se afastando para abrir caminho.
Ela recuou para dar espaço enquanto os homens manobrava a maca em direção à rampa. O processo foi lento, cuidadoso, cada passo calculado para não chacoalhar mais do que o necessário. Nina fechou os olhos durante outra contração e não fez barulho.
Lorena ficou observando.
- Você vai com ela - disse Dante.
- E você? - disse, quando a maca chegou à base da rampa.
- Eu vou ficar aqui, volto assim que o jato puder retornar.
- Não. - A voz de Lorena saiu um pouco histérica - Então eu também fico, vamos juntos.
- Lorena. - A voz não era dura. Era firme da forma que ele usava quando não havia espaço para negociação mas não queria que parecesse uma ordem. - Vai com ela.
Ela virou o rosto. Ele estava parado entre ela e Alexandre, os dois tinham a mesma expressão.
Ela olhou para Alexandre.
Alexandre desviou o olhar discreto demais para ser casual.
Lorena olhou para Dante.
Subiu a rampa sem olhar para trás porque sabia que se olhasse não conseguiria continuar subindo. Encontrou um assento perto da maca onde Nina havia sido acomodada, ouviu os homens fixarem a maca no chão da cabine, sentiu o jato começar a se mover.
Só então olhou pela janela.
Dante estava na pista. Alexandre ao lado dele. Os dois de frente para a aeronave, imóveis, o sol da manhã projetando sombras longas atrás deles.
Dante não desviou o olhar enquanto o jato acelerou.
Lorena ficou com os olhos nele até que a velocidade e a distância tornaram impossível distinguir onde ele terminava e a ilha começava.
A aeronave levantou voo.
Ela virou o rosto para frente.
Havia um aperto no peito que ela não sabia nomear, não era medo, não era exatamente saudade porque ele havia estado ali há menos de dois minutos. Era a consciência de que ele havia ficado numa ilha por um motivo que não havia contado, e que esse motivo tinha um nome que ela não precisava ouvir para saber.
Rafael.
Ela sentia. Sem prova, sem confirmação. E isso era suficiente para o aperto no peito não passar.
Ao lado dela, Nina soltou um som baixo durante outra contração.
Lorena colocou a mão sobre a dela sem pensar.
Nina abriu os olhos. Olhou para a mão. Olhou para Lorena.
Não disse nada.
Lorena também não.
Mas a mão de Nina, depois de um segundo, não se afastou.

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