Dentro do centro de convenções, o burburinho era animado.
Advogados, empresários, estudantes. Todos tagarelando sobre as novidades da área, sobre os desafios da inteligência artificial, sobre o futuro da legislação. O cheiro de café fresco misturava-se ao perfume caro dos ternos bem cortados e ao papel dos programas de evento que todos carregavam nas mãos.
Lorena se sentou em uma das cadeiras do auditório, aguardando o início da palestra de abertura. O coração batia um pouco mais rápido do que o normal. Fazia tanto tempo que ela não frequentava um evento da área. Tanto tempo que ela não se sentia parte daquele mundo.
- Lorena?
A voz veio de trás, familiar.
Ela se virou.
Aline estava ali. O sorriso largo, os cabelos cacheados jogados para o lado, a pasta cheia de anotações debaixo do braço. Os olhos brilhavam, os mesmos olhos que, anos atrás, dividiam apostas na biblioteca e segredos nos corredores da faculdade.
- Aline! - Lorena levantou, e as duas se abraçaram como se o tempo não tivesse passado. - Meu Deus, quanto tempo…
- Anos! - Aline recuou para olhar a amiga, os olhos percorrendo o rosto de Lorena com uma atenção que só quem conhece a gente há muito tempo consegue ter. - Você está igual. Só mais… feliz? É impressão minha?
Lorena riu. Um riso solto, genuíno, o tipo de riso que ela nem sabia que ainda tinha guardado dentro de si.
- Na verdade, você tem razão.
A memória veio sem aviso. O último encontro com Aline tinha sido na noite do acidente. Naquela época, Lorena vivia tentando se comportar como a "mulher do herdeiro". Cada movimento era ensaiado. Cada palavra, medida. O sorriso, calculado tudo para parecer digna da família Menezes.
Era um personagem. E ela foi boa nisso.
Mas desde que deixou aquela casa, desde que se livrou do peso daquela vida, algo dentro dela começou a mudar. Aos poucos, sem que percebesse, ela deixou de sustentar o ar. Deixou de pensar em cada movimento para parecer elegante. Deixou de se preocupar com o que os outros pensavam.
E só agora, olhando para Aline, para o sorriso sincero da amiga, Lorena se deu conta.
- Eu fico feliz por você - Aline disse, os olhos sinceros. - Tem brilho no olhar. O que aconteceu?
- Tanta coisa… - Lorena suspirou, mas era um suspiro leve, sem peso. - Vamos adicionar o contato. Te conto com calma depois.
- Ótimo. Hoje vai ter um jantar depois do evento com a galera. A Carol, o Beto, o Bruno…
- Vou com certeza.
Aline sorriu, satisfeita.
- Sempre que nos encontramos, todos querem saber de você. Nossa aluna mais destacada.
Lorena desviou o olhar por um instante. Não foi destaque em nada mais depois da formatura. O casamento, o controle, o isolamento, tudo isso a afastou dos holofotes que um dia brilharam sobre ela.
Mas agora…
Agora ela tinha uma nova chance.
E ia agarrá-la.
No autofalante, o moderador começou a apresentar os palestrantes. As atenções se voltaram ao palco. As luzes se ajustaram.
Lorena se sentou novamente, Aline ao seu lado.
***
No escritório, Dante não conseguia se concentrar.
Os números na tela do computador se embaralhavam, as planilhas perdiam o sentido, os e-mails aguardavam respostas que não vinham. Ele passou a mão pelo rosto, suspirou, e pegou o celular.
Lorena atendeu no segundo toque.
- Oi - ela disse, a voz animada. - O evento está incrível.
- Que bom. A que horas eu te busco?
- A Aline chamou a galera para jantar - ela respondeu, animada. - Vai ser no Italiano, ali perto do centro.
Dante sorriu. A esposa parecia animada com alguma coisa depois de bastante tempo.
- Que bom - disse, por fim. - Vai se divertir.

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