O dia seguinte chegou sem descanso.
Lorena passou os minutos seguintes à mensagem de Rafael com o celular sobre a mesa, a tela escura, os dedos imóveis. Não respondeu. Não apagou. Apenas deixou o aparelho ali, como se mexer nele pudesse dar mais poder àquelas palavras do que já tinham.
Dormiu mal. Acordou antes do despertador, o braço ainda doendo, a mente já girando antes que os olhos se abrissem completamente.
O plano de Dante.
Casamento.
Ela pensou nisso enquanto vestia o tailleur preto simples, enquanto descia para o carro, enquanto o motorista a conduzia pelas ruas ainda mornas da manhã. E quanto mais pensava, mais aquele plano parecia absurdo. O casamento deles seria um escândalo. Até o dia anterior ela era esposa do primo dele. Como um escândalo desses poderia ajudar a resolver alguma coisa?
Ela entrou pelo acesso reservado, como sempre. O elevador subiu em silêncio. As portas se abriram.
E o clima já era outro.
Lorena sentiu antes de ver. Os olhares que antes eram apenas profissionais agora carregavam algo mais. Desconfiança. Hostilidade. Sussurros que cessavam quando ela passava, retomados logo depois, mais baixos, mais venenosos.
Ela manteve o rosto neutro, a postura ereta. Passou pelo corredor como se não notasse. Mas notava. Cada olhar. Cada silêncio que se fechava atrás dela como uma porta.
Clara estava encostada na mesa de uma das assistentes quando Lorena apareceu. O café na mão, a postura relaxada, os olhos que a acompanharam desde o momento em que ela saiu do elevador.
- Bom dia - Lorena cumprimentou, na altura do balcão.
Clara não respondeu. Apenas a observou por um segundo, o sorriso pequeno, calculado.
- Dormiu bem? - perguntou, a voz doce demais.
Lorena sustentou o olhar.
- Sim.
- Que bom - Clara disse, girando a caneta entre os dedos. - Porque hoje vai ser um dia longo.
- Nós sabemos por onde a auditoria deve começar - a assistente que conversava com Clara disse, sem disfarçar o tom de desdém. Lorena a reconheceu vagamente, deveria ser a assistente do financeiro.
Lorena seguiu em frente, sentindo os olhos da Demolidora cravados em suas costas. No fundo do corredor, sua mesa a esperava. O laptop ainda aberto da noite anterior, a agenda digital piscando, os e-mails acumulados.
Ela sentou-se, abriu a primeira mensagem, e tentou trabalhar.
Mas os pensamentos não obedeciam.
Casamento.
Ela pensou no rosto de Dante quando disse aquilo. O nervosismo nas mãos, a perna balançando, o jeito como ele não conseguia olhar para ela enquanto falava. Na hora, ela atribuiu aquilo ao desespero do momento, à crise que ele precisava conter.
Agora, na luz fria da manhã, a lembrança insistia em voltar com outros contornos.
Não era o momento para pensar nisso. Não era.
Ela forçou a mente a voltar para os e-mails. Havia uma lista de contatos a avisar, investidores a tranquilizar, reuniões a reagendar. O trabalho era tanto que, em circunstâncias normais, teria tomado dias.
Mas as circunstâncias não eram normais.
- Lorena?
Theo a chamou. Ela se virou. Ele estava ali, uma pasta debaixo do braço, a expressão mais séria do que o habitual.
- Eles já estão chegando.
Lorena sentiu o estômago apertar.
- Os acionistas?
- Sim. Dante pediu para você ficar na sala com ele.
Ela piscou, surpresa.
- Eu?
- Você é a assistente dele - Theo respondeu, mas havia algo no tom que sugeria que não era só isso. - E vai ser a esposa dele amanhã. É melhor que estejam juntos.
A palavra esposa caiu entre eles como um objeto estranho. Lorena desviou o olhar, organizando os papéis sobre a mesa com movimentos mais bruscos do que pretendia.
- Certo.
Theo não insistiu. Apenas esperou enquanto ela fechava o laptop, pegava o tablet, ajustava o bloco de notas. Quando ela se levantou, ele caminhou ao lado até a porta da sala de reuniões.
- Lorena - disse, antes que ela entrasse.



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