A manhã de domingo amanheceu silenciosa sobre a mansão. O sol já estava alto quando Theo chegou, subindo os degraus da entrada com a desenvoltura de quem não precisava avisar. Os seguranças o conheciam bem, e ele dispensou a acompanhante com um gesto casual.
- O chefe está no escritório? - perguntou a um dos funcionários.
- Sim, senhor. Aguardando o senhor.
Theo seguiu pelo corredor, as mãos nos bolsos, os passos leves. Quando entrou no escritório de Dante sem bater, como sempre fazia, o amigo estava sentado atrás da mesa, os olhos fixos na tela do computador.
- Bom dia, noivo - disse Theo, com um sorriso preguiçoso.
Dante nem levantou os olhos.
Theo se jogou no sofá, esticando as pernas com a desenvoltura de quem estava em casa. Foi então que olhou melhor para o amigo, reparando nos detalhes que antes não tinha notado.
- Caramba… o que aconteceu com o seu nariz?
Dante levou a mão ao rosto, ainda roxo no local onde Lorena o havia acertado na noite anterior.
- Nada. Um acidente.
Theo arqueou uma sobrancelha, o sorriso malicioso surgindo no canto dos lábios.
- Acidente? Na noite de núpcias? Foi tão intenso assim?
- Theo…
- Está roxo, cara. Parece que seus fetiches são selvagens demais até para você.
Dante não respondeu. Apenas desviou o olhar, o rosto levemente corado, os dedos tamborilando na mesa como se buscassem uma distração.
Theo riu baixo, mas não insistiu. Conhecia o amigo o suficiente para saber quando não conseguiria mais informação. Apesar da provocação, havia algo no jeito de Dante - no modo como ele evitava o olhar, como as mãos se moviam inquietas - que dizia mais do que qualquer explicação.
- Tudo bem, guarde seus segredos românticos - disse Theo, recostando-se no sofá e cruzando os braços. - Mas falando nisso… quanto tempo você vai demorar para dizer a verdade para ela?
Dante suspirou, recostando-se na cadeira. O gesto era cansado, carregado de noites mal dormidas e pensamentos que não lhe davam sossego.
- Ela não está pronta.
- Ela não está pronta ou você não está pronto? - Theo rebateu, o tom ainda leve, mas os olhos mais atentos.
- Theo…
- É uma pergunta legítima - insistiu, inclinando-se para frente. - Você passou anos esperando. Anos. Agora ela está aqui, do seu lado, com seu anel no dedo, morando na sua casa… e você continua esperando.
Dante passou a mão pelo rosto, o gesto cansado, quase exausto.
- Ela acabou de sair de um casamento abusivo. O Rafael ainda está obcecado por ela, ainda representa uma ameaça. Ela precisa de tempo para se curar, para entender o que quer… antes de eu jogar mais um peso nos ombros dela.
- Amor não é peso - Theo rebateu, mais sério agora.
- Para ela, pode ser.
Theo observou o amigo, a forma como ele evitava o olhar, como os dedos tamborilavam na mesa num ritmo nervoso, como a mandíbula se mantinha tensa mesmo no silêncio.
- E os votos? - perguntou, mudando de tom.
Dante finalmente ergueu os olhos.
- Foi só um ensaio.


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