O bar era o mesmo de sempre. As luzes baixas, o ambiente vazio naquele horário da tarde, o cheiro de charuto misturando-se ao perfume caro do uísque que Nelson acabara de servir.
Rafael chegou atrasado.
O terno escuro estava amassado, os olhos vermelhos. As semanas na casa de campo não tinham sido gentis com ele, mas também não o tinham domado. Pelo contrário.
Nelson já estava sentado em uma mesa no fundo, os braços cruzados, o olhar atento.
- Você está uma droga - comentou, enquanto Rafael se sentava.
- Obrigado. Você também está bem.
- Uma droga ainda foi um elogio.
Rafael ignorou. Pegou o copo de uísque que Nelson deslizou na direção dele e bebeu de uma vez. O líquido queimou a garganta, mas ele nem sentiu.
- Como estão as vendas? - perguntou, a voz rouca.
Nelson olhou ao redor antes de responder.
- Estou fazendo aos poucos. Não podemos chamar atenção. - Ele levou o copo à boca e sorveu um gole que desceu rasgando a garganta. - As ações estão sendo diluídas. Ninguém percebeu ainda.
Rafael assentiu, os olhos fixos no fundo do copo vazio.
- E o velho? Como estão os planos? - Nelson inclinou-se para frente, a voz mais baixa.
- Ele está pronto. O espião na Nexus Tech já entregou o que precisávamos. O algoritmo vai ser copiado antes do lançamento.
Um sorriso lento surgiu no rosto de Rafael.
- Os bons dias do Dante estão terminando.
- Parece que sim - Nelson concordou, a expressão tensa. - Aquele velho é mais cruel do que nós dois juntos. Se ele nos descobrir antes da hora, nós também estaremos acabados.
Rafael serviu mais uísque, os dedos apertando o copo com força.
- Ele acha que está me usando - continuou, a voz carregada de amargura. - Que pena. Eu fui ensinado por ele pessoalmente.
Nelson o observou em silêncio.
- E você já decidiu o que vai fazer depois?
Rafael ergueu os olhos.
- Meus planos preciso te informar antes?
Nelson não respondeu. Apenas bebeu mais um gole.
O silêncio entre os dois se alongou por um instante. O bar estava vazio, os garçons sumidos, apenas o som baixo de uma música antiga preenchendo o ambiente.
- Eu tenho um presente para você - disse Nelson, por fim.
Rafael ergueu uma sobrancelha.
- Que presente?


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