O envelope ainda estava em suas mãos quando Lorena ouviu os passos.
Rápidos. Firmes. Aproximando-se.
O coração disparou. Ela tentou fechar a lata às pressas, mas os dedos tremiam demais, e a tampa enferrujada rangeu mais alto do que deveria. O som ecoou no silêncio da sala como um disparo.
A porta se abriu.
Clara entrou.
Ela carregava uma pasta de couro preta sob o braço e o olhar fixo na tela do celular. Não notou Lorena de imediato. Deu dois passos em direção à mesa de Dante, onde uma pilha de documentos aguardava separada.
- O Dante pediu para eu pegar… - começou, levantando os olhos.
A frase morreu na boca dela.
Os olhos de Clara encontraram os de Lorena. Depois, deslizaram para a lata de biscoitos ainda aberta sobre a mesa. Depois, para o envelope que Lorena ainda segurava, preso entre os dedos trêmulos.
O silêncio que se seguiu foi breve. Mas pareceu uma eternidade.
Clara não perguntou nada. Não precisava. O olhar dela dizia tudo - uma mistura de surpresa, desconfiança e um leve toque de triunfo. Como se tivesse acabado de encontrar a prova de que Lorena não era tão certinha quanto aparentava.
Lorena sentiu o rosto queimar.
- Eu só vim pegar os remédios - disse, a voz saindo mais fraca do que gostaria. - O armário estava aberto e eu…
- Não precisa se explicar - Clara interrompeu, a voz seca.
Ela se aproximou da mesa, pegou os documentos que Dante havia separado e os colocou dentro da pasta de couro. Os movimentos eram precisos, controlados, como se nada tivesse acontecido. Mas o olhar ainda estava ali. Avaliando. Julgando.
- Preciso voltar para a reunião - disse, virando-se para sair. - Melhor você…
Ela apontou para Lorena, depois para a lata ainda sobre a mesa. Não completou a frase. Apenas deu as costas e saiu.
Lorena ficou ali, imóvel, o envelope ainda na mão, o coração batendo forte. Não se sentia assim desde que era pequena e era pega roubando doces às escondidas. A vergonha subia pelo pescoço, pelas bochechas, queimando a pele como fogo.
Ela guardou o envelope de volta na lata, fechou a tampa com cuidado e a colocou no lugar exato onde a encontrou. Fechou o armário. Ajeitou os frascos de remédios na prateleira, como se aquilo pudesse apagar o que acabara de acontecer.

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