“Sr. Lock, o que devemos fazer? Quer que eu vá ajudá-la?”, Bill perguntou em voz baixa, tomado pela compaixão.
Ele também era pai. Ver uma cena daquelas doía.
Finn não respondeu de imediato, mas antes que pudesse dizer algo, Nadine franziu o cenho. “Você é o motorista, não um gari. Ajudar uma mulher dessas seria humilhante. Apenas dê a volta.”
“Mas... Talvez a gente possa esperar um ou dois minutos, Sr. Lock. Ela logo termina”, insistiu Bill com gentileza. Qualquer um podia ver a situação. A rua era estreita e, se tentasse desviar, o carro acabaria jogando água suja e fria sobre a mulher.
Era água acumulada durante toda a noite.
Suja e gelada.
E ela ainda carregava um bebê.
“Se for pra culpar alguém, culpe o tempo. Choveu a noite inteira. Ela que escolheu varrer logo essa rua alagada. Não é culpa nossa, o azar é dela”, disse Nadine, fazendo um biquinho desdenhoso.
Ela olhou de canto para a expressão impassível de Finn e, ao notar sua reação, apressou-se em adotar um ar de falsa piedade. “Também fico com pena dela, mas...”
Antes que terminasse, a voz fria dele cortou o ar.
“Ela é só uma faxineira. Pode passar. Sei que está preocupada com o horário da reunião”, acrescentou, num tom suave, enquanto dava tapinhas na mão de Nadine. Mas, ao se voltar para Bill, sua voz voltou a ser de gelo. “O que, ficou surdo agora?”
Bill se assustou, apertou o maxilar e pisou no acelerador.
O carro avançou. A água da chuva espirrou alto, formando uma cortina que logo se dissipou no ar.
Tess ficou parada, imóvel, segurando Layla contra o peito.
Nem teve forças para pegar a vassoura que deixou cair.
O carro passou roncando pela rua.
No banco de trás, Nadine olhou pelo retrovisor com um sorriso de triunfo.
Uma faxineira imunda como ela se atreveu a ficar no meu caminho? Bem-feito!
“Uááá! Uááá!”
Layla se assustou e começou a chorar, o choro agudo rasgou o silêncio da rua fria.
Mesmo depois que o carro sumiu no fim da via, o choro não parava.
O coração de Bill se apertou de culpa.
No banco de trás, Finn fingia ler documentos, com ares de indiferença. Mas a página continuava intacta sobre o colo.
“Shhh, Layla. Já passou”, Tess murmurou, tentando conter as lágrimas enquanto embalava a filha presa ao peito, vendo o carro desaparecer ao longe.
“Não chore, meu amor. Está tudo bem.”
Alguns pedestres pararam. Uns puxaram o celular para filmar a cena. Achando engraçado, postaram o vídeo na internet.
“Olha essa gari, toda molhada de lama! Que espetáculo!”, zombou um.
“Isso é um achado! Me manda um pix que eu te levo pra ver de perto!”, gritou outro.
As vozes cheias de escárnio não a abalaram, mas o choro assustado de Layla, sim.
As lágrimas de Tess enfim caíram, pingando sobre o cobertor da filha.
Ela tentou limpar rapidamente o rosto, antes que molhasse o bebê, mas percebeu que suas mãos estavam sujas de lama. Isso só piorou a situação.
Layla gritava em seus braços, o rostinho vermelho, molhado, o choro incontrolável. Não importava o quanto Tess tentasse acalmá-la, o som a dilacerava por dentro. E naquele instante, ela desabou no meio da rua fria.
Tess tinha visto. Não deixou de notar o que havia dentro do carro: o homem e a mulher abraçados.
Seu ex-marido e sua irmã e aprendiz, a quem ela um dia ensinou com tanto cuidado.
Agora, os dois desfrutavam do conforto e do luxo, sustentados sobre as ruínas da reputação e da dignidade dela. Haviam subido pisando nela.
Ela amou o homem errado e agora pagava o preço. Entregou tudo por ele, e este era o fim. De quem mais poderia reclamar?
Mas agora ela tinha Layla. Tess a segurou com mais força.
O cachecol escorregou quando ela se ajoelhou, revelando o rosto escondido.
Um rosto lindo, como uma pintura. Olhos vivos, nariz delicado, lábios naturalmente rosados. Mas um corte profundo atravessava a bochecha esquerda, destruindo a harmonia. Era uma cicatriz que obrigava qualquer um a olhar duas vezes e depois desviar o olhar.
Ali, naquela rua cheia de poças, uma jovem mãe permanecia ajoelhada, abraçando o bebê e chorando em silêncio.
O silêncio pesava.
Até o rapaz que antes gritava empolgado, pedindo doações na live, emudeceu de vergonha. As mãos baixaram, e o rosto pegou fogo.
“Eu... Sinto muito”, balbuciou. “Só queria ganhar visualizações.”
“Aquele carro foi cruel”, comentou outro. “Quer que eu te ajude a denunciar?”
Que desperdício...
Querida, mesmo que eu precise varrer cada rua dessa cidade, ainda vou te dar o céu.
Max abaixou o olhar, seus longos cílios tremeram levemente. Os lábios estavam cerrados. Sob a superfície contida, um lampejo de dor cruzou-lhe o semblante.
Ele nunca se arrependeu do que fez.
Agora, tinha tudo: poder, reputação, riqueza. Poderia oferecer a ela uma vida melhor.
Afinal, ela passou apenas um ano presa.
Agora não tinha mais nada. Mas isso não importava. O passado não importava. Ele não se importava. Poderia cuidar dela e compensar tudo.
“Sr. Hunt, aquela mulher com o bebê?” O motorista piscou, surpreso.
“Não pode ser a Sra. Ember. O senhor deve ter se enganado.”
Na cabeça de Max, anos de saudade o faziam ver Tess em toda mulher parecida.
Mesmo que ela tivesse estado na prisão, era impossível que fosse aquela mulher de casaco surrado, varrendo a rua.
Naquela época, Tess era a estrela em ascensão do mundo jurídico em Aetheris. Tinha uma elegância serena. Um simples sorriso dela fazia réus tremerem e promotores suarem frio.
Os maiores escritórios a disputavam, oferecendo salários absurdos. Mas ela recusava tudo para assumir um cargo modesto como advogada-chefe no Grupo Lock.
Alguns diziam que ela estava cega de amor. Mas ninguém sabia o que se passava em sua cabeça.
De qualquer forma, uma mulher como ela brilhante e refinada jamais poderia ser a mesma pessoa coberta de sujeira, segurando um bebê enquanto varria o chão.
Max fechou lentamente a mão, com os dedos se curvando em punho.
O vidro do carro subiu lentamente. Seu rosto, bonito demais para parecer real, desapareceu nas sombras, e aquela beleza foi tomada por algo escuro e difícil de entender.
“Espero estar enganado”, murmurou.
“Descubra se ela foi libertada antes do tempo. E aquela criança... É do Finn?”
Alan Hoffman, o motorista e também assistente, perdeu o sorriso.
Será que o Sr. Hunt está falando sério? Ele realmente acha que aquela mulher é a Tess? Mas isso é impossível.
Mesmo assim, respondeu prontamente:
“Sim, Sr. Hunt.”

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