Liliane
Senti os pequenos adesivos sendo colados em minha pele, conectando-me às máquinas ao meu lado. O calor envolvia meu corpo, enquanto o som ritmado dos batimentos ecoava em meus ouvidos.
Percebi o carinho em minha cabeça antes mesmo de abrir os olhos.
— Posso até me acostumar a dormir assim…
Quando abri os olhos, encontrei o olhar de Aquiles sobre mim. Intenso e preocupado.
— Estarei sempre à sua disposição, companheira.
Tentei sorrir, mas o cansaço pesava sobre mim como uma rocha.
— Aquiles… prometa uma coisa.
Ele se inclinou um pouco mais, atento.
— O que quiser.
Respirei fundo, reunindo forças.
— Prometa que vai segurar nossos filhotes assim… que vai fazê-los se sentir protegidos… amados… como você faz comigo.
Vi seus olhos brilharem, e logo as lágrimas começaram a escorrer por seu rosto.
— Você mesma fará isso, meu amor.
Engoli com dificuldade. O ar parecia mais pesado.
— Prometa… por favor.
Aquiles aquiesceu lentamente.
— Eu prometo. Eles nunca vão duvidar do quanto são amados. Serão os filhotes mais protegidos deste reino.
Um pequeno riso escapou dos meus lábios.
— Obrigada…
Me aninhei contra ele, como uma filhote buscando abrigo. O calor do seu corpo me envolveu, trazendo um conforto silencioso.
Selene… cuide dos meus filhotes… cuide do meu companheiro…
A escuridão voltou a me puxar.
***Aquiles
O som da máquina mudou.
Um bip contínuo preencheu o ambiente.
Olhei para o monitor.
Uma linha reta.
O coração da minha companheira havia parado.
Meu rugido ecoou pela sala, chamando todos ao redor. Em poucos segundos, médicos e enfermeiros tomaram o espaço. Afastei-me apenas o suficiente para colocarem Liliane na maca.
Ania começou a falar em sua língua antiga. Suas mãos brilharam com uma luz dourada intensa, mais forte do que qualquer coisa que eu já havia visto. A energia fluía dela diretamente para Liliane.
A médica gritava ordens, enquanto a maca era empurrada rapidamente para fora da sala.
Eu segui atrás.
Até bloquearem minha entrada.
Fiquei parado diante da porta fechada, sentindo-me completamente impotente.
Minha família estava ao meu redor, mas, ainda assim, nunca me senti tão sozinho.
Encostei-me na parede do hospital. Minhas pernas cederam e deslizei até o chão. Meu peito parecia estar sendo esmagado.
Duas horas passaram lentamente, cada segundo mais cruel que o anterior.
Então, a porta se abriu.
Uma incubadora saiu apressada.
Dentro dela, um filhote.
Percebi imediatamente.
Ela havia dado tudo de si para salvar Liliane.
Fechei os olhos por um instante.
Se eu perdesse minha companheira…
Não sabia o que restaria de mim.
Mas eu cumpriria minha promessa...
Jamile
Tento recuperar o fôlego depois de encontrar meu companheiro de segunda chance, rejeitá-lo, quase perder minha paciente e, aparentemente, ainda ter uma mudança inteira para organizar pelo celular, já que não conseguirei voltar para casa novamente.
Tomo um banho rápido e vou para a sala de descanso. Fecho os olhos e só consigo ver aquele macho lindo me olhando, magoado. Eu já tive um companheiro aos dezoito anos. A deusa da Lua me “presenteou”, como todos diziam.
Minha união durou quatro anos. No começo, tudo era bom, mas com o tempo ele foi ficando cada vez mais ciumento, fui me afastando de todossob sua influência, ele me convenceu que uma loba estudar era perca de tempo. Depois da nossa união, me disse que eu não devia mais trabalhar, pois o salário dele era suficiente para nos manter. Eu deveria cuidar apenas da casa e da nossa filhote que estava por nascer.
Quando a gravidez começou a avançar começou a me chamar de peso, uma inútil, uma burra que só servia para o serviço de casa, começou a me forçar na cama com brutalidade.
Eu me enganava dizendo que era uma fase.
Uma noite, ele demorou demais no “trabalho”. Comecei a sentir uma sensação estranha no peito, uma opressão crescente, como se algo estivesse errado. Fui atrás dele.
Quanto mais eu me aproximava do escritório, mais aquela dor me rasgava por dentro. Eu precisava ver com os meus próprios olhos o que meu coração e meu corpo já estavam denunciando.
No andar dele estava quase tudo apagado, exceto pela última luz acesa no escritório, de onde vinham pequenos sussurros e gemidos.
Quando cheguei à porta, vi a secretária deitada sobre a mesa, enquanto ele segurava suas pernas erguidas. Ele se movia contra ela com pressa, com um sorriso satisfeito no rosto, evidenciando seu prazer.
E, naquele instante, algo dentro de mim se quebrou de vez.
A dor não foi apenas emocional. Foi física e cruel.
Perdi minha bebê naquela noite.
E desde então, nunca mais confiei em um companheiro.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...