PERSPECTIVA DA SERAPHINA
No momento em que meus olhos pousaram nele, o bom humor pelo qual havia lutado tanto se dispersou como um pássaro assustado. Foi quase cruel o quão rápido a leveza se apagou no meu peito.
Um segundo antes, eu estava agarrada à memória do Daniel, imaginando como seria o som da sua risada se ele estivesse aqui comigo e, no instante seguinte, lá estava o Kieran.
Tirando aquela ligação ridícula do dia em que ele ficou bêbado e o breve confronto no quarto do hospital da Celeste, eu estava me saindo muito bem na missão de evitar o Kieran e não tinha interesse em mudar isso tão cedo.
Girei levemente, determinada a ir embora e desaparecer na tranquilidade das árvores. Foi então que a voz dele ecoou pelo parque.
"Sera."
Eu congelei. Algo no tom dele, que era firme, gentil, quase... cuidadoso, fez o meu estômago revirar. Eu devia ter continuado andando, mas, contra meu bom senso, olhei para trás.
Ele estava em pé na frente do banco, com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco e os ombros ligeiramente curvados.
Ele parecia... diferente. Não lembrava em nada o Alfa arrogante que dobrava o ar ao seu redor conforme a sua vontade. Ele parecia cansado. Exausto.
Levantei as sobrancelhas, fingindo indiferença. "O que é agora, Kieran? Não tô com paciência pra teatros hoje."
O maxilar se contraiu mas, em vez de retrucar, ele suspirou. "Não é teatro. Eu só... quero conversar. Sobre a Celeste. Sobre tudo."
Meus braços se cruzaram instintivamente sobre o peito, formando uma barreira entre nós. "Você me perdoa se eu não ficar radiante com a ideia?"
Ele deu um passo mais para perto, não o suficiente para invadir o meu espaço, mas próximo o bastante para que eu pudesse ver as sombras leves sob os seus olhos. Embora se manifestasse externamente, seu cansaço não parecia físico.
"A Celeste já saiu do hospital. O médico da família tá ao lado dela o tempo todo. Ela tá se recuperando rápido."
As palavras dele foram como pedras saltando na água e fazendo ondulações na superfície que não chegavam à profundidade da minha raiva.
Levantei uma sobrancelha. "E eu deveria me importar porque...?"
"Porque," ele respondeu com cuidado, "eu não acredito que você a empurrou."
A certeza na voz dele fez o meu coração vacilar. Por um momento, não tive certeza se tinha ouvido direito. Minha boca ficou seca. "Como é?"
Ele encontrou os meus olhos e, pela primeira vez, não havia acusação, amargura, nem presunção nos olhos dele. Apenas honestidade.
"Eu disse que eu não acredito que você a empurrou. Pensei muito sobre isso e não faz sentido. Você não faria algo assim."
Por um segundo, eu apenas o encarei. Este homem, meu ex-marido, que duvidou de mim a todo momento, que nunca esteve do meu lado nem quando éramos casados, agora estava aqui dizendo que acreditava em mim.
O que raios ele e o Ethan andaram fumando?
A sensação de déjà vu e a ironia quase me fizeram rir.
Inclinei a cabeça, deixando o sarcasmo envolver as palavras. "Bem, isso que eu chamo de uma mudança de opinião bem refrescante. O que te levou a essa revelação, Kieran? A lua nasceu diferente ontem à noite? Ou, mais provavelmente, é outra armadilha? A Celeste te pediu pra falar isso?"
Seus lábios se apertaram em uma linha fina, mas ele não reagiu com raiva.
Em vez disso, balançou a cabeça levemente, como se repreendesse a si mesmo. "Acredite no que quiser, mas eu tô falando sério."
Deixei o silêncio se prolongar. Uma parte pequena e perigosa de mim queria sentir alívio, me sentir vingada.
Mas eu me recusei a dar a ele essa satisfação. Eu não era tola o suficiente para me apoiar nas palavras dele.
Além disso, assim como no caso do Ethan, essa mudança de opinião veio tarde demais.
"Bom," eu disse, virando-me novamente. "Se não há mais nada..."
"O caso dos renegados," ele disse, interrompendo os meus passos. Seus ombros se endireitaram ligeiramente, como se ele estivesse se preparando. "Fizemos progresso."
Algo dentro de mim se ergueu imediatamente.
"Que tipo de progresso?" Minha voz saiu mais afiada do que eu pretendia, traindo o fio tênue de esperança que de repente se enrolava no meu peito.
Se o caso dos renegados fosse resolvido, isso significaria que eu estava segura e que o Daniel poderia voltar para casa.


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