PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Dois dias tinham se passado desde a minha última conversa com o Kieran.
Dois dias desde o meu encontro sobrenatural na floresta.
Dois dias desde que a tempestade dentro de mim havia se acalmado, me deixando crua e vazia, à deriva entre o silêncio esmagador onde a minha loba deveria estar e a esperança de que, um dia, esse vazio fosse preenchido.
No começo, eu só queria me desconectar do mundo, me encolher no meu quarto e deixar a dor me consumir por completo. Queria me afogar no meu próprio sofrimento, convencendo-me de que eu era uma tola por acreditar, mesmo que só por um instante, que eu poderia pertencer a um mundo que passou tanto tempo fingindo que eu não existia.
Mas esse redemoinho, essa fraqueza que me puxava para o desespero, não era o motivo pelo qual eu tinha ido até ali.
Lembrei-me das palavras da velha, sobre como a dor cegava mais do que a escuridão, como a paciência traria força onde a dúvida só sufocava.
Eu tinha feito uma promessa quando me juntei à SDS. Eu não estava ali pelo Kieran. Nem mesmo pelo Lucian. Eu estava ali pelo Daniel. E por mim mesma.
Aquela lembrança foi como uma faísca transformada em chama e queimou através do nevoeiro da desilusão, me lembrando que a força nunca nasce em um único momento. Ela está na escolha repetitiva de não desistir. A força não segue uma linha reta, ela envolve machucados, falhas, momentos de humilhação e a persistência de levantar-se novamente.
Naquela noite, enquanto eu estava sentada de pernas cruzadas na minha cama com o celular equilibrado nos joelhos e a tela iluminando o rosto brilhante e ansioso do Daniel, minha determinação se fortaleceu.
O sorriso dele se alargou e as bochechas ficaram coradas de empolgação. "Mãe!" A voz dele estava repleta de energia, como sempre ficava quando ele não via a hora de me contar alguma coisa. "Você não vai acreditar no que o Vovô começou a me ensinar hoje!"
Eu ri suavemente com o entusiasmo dele, ajustando o ângulo da câmera para que ele pudesse me ver melhor. "Ah é? O que te deixou tão animado?"
Ele se aproximou da tela e vi os olhos brilhando com aquela alegria que só reluz nos olhos inocentes das crianças. "A História dos Lobisomens! O Vovô disse que agora eu tô grande o suficiente para começar a aprender sobre as lendas. E, Mãe..."
A voz dele caiu para um sussurro conspiratório, embora a animação ainda transparecesse. "Ele me contou a história do Lobo Solitário, Alcanor."
Eu pisquei, sentando-me mais ereta. "Alcanor?"
Eu já tinha ouvido trechos da história do Alcanor antes, fragmentos meio sussurrados que nunca formavam um todo.
Quando éramos crianças... Na verdade, quando a Celeste ainda era bem pequena e eu ainda tinha voz ativa na família, o Ethan e eu costumávamos discutir interminavelmente sobre o dilema se Alcanor era homem ou mulher.
Nossa mãe ouviu uma vez e, do seu jeito direto de sempre, nos disse para não perdermos tempo com 'só uma lenda'.
Mas eu me lembro de como os olhos dela demoraram em mim depois e como vi o leve contorno de um sorriso quando eu me mantive firme. E, então, ela acrescentou: "Mas só uma mulher poderia ter resistido a tantas provações e ainda assim ter prevalecido."
Esse reconhecimento silencioso e sutil foi raro o suficiente para ficar gravado na minha memória.
Talvez por isso eu sempre me lembrava do nome Alcanor, mesmo muito depois de a discussão ter terminado.
Daniel assentiu vigorosamente, fazendo os seus cabelos encaracolados saltarem. "Sim! Ele era incrível, mãe. Mais forte do que todas as Alcateias juntas. Ele lutava não só com as garras, mas com... com honradez também. O Vovô disse que ninguém sequer sabe se ele era um homem ou uma mulher. Algumas pessoas acham que ele não era nenhum dos dois, apenas vagava sozinho, sem uma Alcateia, mas onde quer que fosse, ele levava a paz. Ele protegia tanto lobos quanto humanos quando estavam em risco. E adivinha?"
A voz dele tremia de admiração. "O Vovô disse que eu posso ser como ele um dia."
A tela ficou embaçada enquanto as lágrimas surgiam nos meus olhos sem que eu as tivesse chamado. O rostinho do Daniel, tão sincero, tão correto... Isso era tudo o que eu sempre sonhei para ele, um futuro livre das sombras da minha fraqueza, cheio de luz e propósito.
Engoli em seco, tentando manter a voz firme. "Seu avô disse isso mesmo?"
"Sim!" O peito do Daniel se inchou de orgulho. "Ele disse que se, eu continuar estudando e trabalhando duro, quando eu tiver dez anos, talvez eu até comece a treinar com a Alcateia. Não é incrível?"
Sorri, enquanto os meus dedos apertavam a borda do celular. "É incrível. Tô tão orgulhosa de você, meu amor."
Um aperto passou por mim e orgulho e medo se misturavam em igual medida. Meu menino estava crescendo depressa e entrando em um destino que carregava um peso muito além dos seus anos.
Eu sabia que seria assim desde que ele era muito pequeno. O Daniel era esperto, forte e tinha um poder inato que até eu podia sentir.
Eu sabia, sem dúvidas, que o destino tinha grandes planos para o meu filho.
E eu...
A insegurança subiu pela minha garganta antes que eu pudesse detê-la.
"Daniel..." Minha voz se suavizou. "Você ficaria... decepcionado comigo se eu nunca conseguir a minha loba?"
O sorriso dele vacilou e as suas sobrancelhas franziram do mesmo jeito que as do Kieran faziam quando ele estava imerso em pensamentos. "Decepcionado? Por que eu ficaria decepcionado?"
Desviei o olhar, envergonhada com a minha própria fraqueza. "Porque eu não sou como os outros lobos. Porque, não importa o quanto eu treine, sempre estará faltando um pedaço de mim. E, se me falta algo, talvez... talvez falte algo em você também."
O silêncio se estendeu entre nós, pesado, até que a voz do Daniel o cortou, firme, estável e soando muito mais velho do que a sua idade: "Mãe, não."
Olhei de volta para a tela, surpresa. Seus olhos ardiam com convicção.
"Bom, sim, eu admiro o Alcanor. Ele é tipo... Uau! Um verdadeiro herói, né? Mas sabe o que o tornou especial? O que o tornou especial era que ele não desistia. Mesmo quando ele não tinha uma Alcateia, mesmo quando todo mundo achava que ele não era nada, ele provou que estavam errados."
A mãozinha dele subiu e apertou contra o peito. "Você sempre me diz que os heróis não são os mais fortes, são aqueles que se recusam a desistir. E, mãe…" Sua voz embargou de emoção. "Essa pessoa é você. Você já é a minha heroína."
Prendi a respiração.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei