PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Determinação é uma coisa estranha. Nem sempre chega como um trovão ou um grito de guerra. Às vezes, se infiltra silenciosamente, como uma maré que eu não tinha percebido até me levar mais longe do que eu esperava.
Depois do meu jantar com o Lucian, essa maré não recuou. Ela permaneceu comigo, levando embora as últimas dúvidas que eu tinha sobre o meu lugar no mundo. As palavras dele 'Você é exatamente o tipo de loba que a Deusa da Lua quis abençoar' ainda ressoavam na minha cabeça.
Eu não era ingênua a ponto de deixar que os elogios me levassem a ser imprudente, mas eles me trouxeram firmeza.
Eu não estava na SDS apenas para me fortalecer. Eu estava ali por todos nós, lobos que já foram chamados de incompletos, indignos ou invisíveis. Lobos como eu. Lobos que haviam esquecido como é andar de cabeça erguida.
Não restava muito tempo. Menos de duas semanas nos separavam do TFL.
Já fazia dez anos desde que a SDS abriu as portas pela primeira vez e, segundo a Maya, esta edição do TFL tinha atraído mais lobos do que qualquer outra na história da SDS.
Voluntariar-me, junto com muitos outros alunos, para ajudar nos preparativos não foi algo que eu precisei refletir muito se faria.
Foi assim que fui parar ao lado de Judy Barnes, uma Ômega ruiva e bonita que aparentemente havia feito o bolo da minha festa surpresa de aniversário.
Acabamos na recepção do Grand Crest Hotel, com os braços cheios de livros de registros, listas de convidados e chaves de quartos, tentando organizar o caos que se espalhava a cada nova chegada.
O saguão estava cheio de sons: risadas, gritos de ordens, o barulho de botas no mármore polido. Lobos chegavam de todas as partes, mas aqueles que representavam as Alcateias do sul eram da jurisdição da Judy e da minha também.
Alguns irradiavam uma autoridade marcante, enquanto outros traziam consigo o ar tranquilo de viajantes que tinham vindo para observar, não para competir.
"Certo," murmurou Judy ao meu lado, folheando um livro enquanto sua trança ruiva escorregava pelo ombro. "Próxima: Alcateia Cypress Vale, doze membros."
Olhei em direção às portas. Como de praxe, um grupo entrou com passos firmes, liderado por um homem alto com cabelos negros salpicados de prata. O sorriso dele era leve e os seus olhos brilhavam com aquela calorosa simpatia que me fazia lembrar do outono.
"Bem-vindos ao Grand Crest Hotel," eu disse, inclinando a cabeça com um sorriso acolhedor. "Eu sou a Sera e esta é a Judy. Vamos ajudar vocês durante a estadia."
"Alfa Thomas, da Cypress Vale," ele se apresentou gentilmente, com a voz de alguém que estava acostumado a ser ouvido, mas não era obcecado por ser obedecido. "Obrigado por nos receberem."
Atrás dele, os seus lobos, obviamente fortes, mas agradavelmente despretensiosos, inclinaram as cabeças educadamente. Eles exalavam um leve cheiro de resina de pinho e terra fresca.
Os integrantes da Alcateia Cypress Vale foram seguidos pela Alcateia Seabreeze, que chegou em meio a um turbilhão de conversas e roupas vibrantes, o tipo de pessoas que usavam sorrisos como joias. A Luna deles, uma mulher pequena com o cabelo tingido de verde-mar, piscou para mim como se fôssemos velhas amigas.
Depois, veio a Alcateia Granite Fang, cujo Alfa mal falou. Ele era corpulento e tinha um rosto impenetrável, enquanto os seus lobos se moviam com a precisão militar que automaticamente fez eu me endireitar.
Cada Alcateia tinha o seu tempero, o seu peso, e a Judy e eu trabalhávamos como engrenagens de uma máquina atribuindo quartos, respondendo perguntas e resolvendo pequenos conflitos.
As horas passaram rapidamente ao passo que a pilha de formulários de check-in ia diminuindo e aumentando como a maré.
Foi exaustivo, mas também revigorante.
Sempre que eu levantava o olhar, via rostos que não me conheciam e que não conheciam o meu passado. Ainda assim, lá estava eu, sendo o primeiro ponto de contato deles no Hotel.
Eu não era a filha excluída dos Lockwood ou a esposa invisível dos Blackthorne.
Ali, eu era apenas… a Sera da SDS.
A paz e a animação me sustentaram até que as portas se abriram com uma força que fez os lustres de cristal tremerem.
Os lobos da Shadow Claw avançaram como uma tempestade. Na frente deles, vinha o Brynjar. Não precisei dos comentários sussurrados atrás de mim ou do documento de check-in dos hóspedes para saber o nome dele, sua presença anunciava-o com clareza. Ombros robustos, cabelo loiro cortado rente ao couro cabeludo e olhos da cor de cobre queimado. Ele caminhava com a confiança de alguém que nunca tinha ouvido a palavra 'não' na vida.
"Recepção," ele latiu antes mesmo de chegar ao balcão. "Precisamos dos nossos quartos. Agora."
Judy e eu trocamos um olhar rápido. Ela endireitou os ombros, mas eu pude ver o lampejo de inquietação nos seus olhos.
A reputação da Shadow Claw os precedia. Eles eram famosos por sua agressividade e por desprezar qualquer um que considerassem fraco.
Puxei os registros para perto, folheando até o documento deles. "Alcateia Shadow Claw, Beta Brynjar liderando. Cinco competidores, seis acompanhantes."
"Sim, sim," ele interrompeu, tamborilando os dedos no balcão de mármore. "Nos dê a ala Alfa."
Levantei o olhar. "Isso não será possível," respondi com calma. "A ala Alfa é estritamente reservada... para Alfas," enfatizei, já que ele parecia ter um senso de superioridade exagerado.
"Os quartos designados para vocês estão aqui." Deslizei as chaves em direção a ele.
Ele não as pegou. Em vez disso, seus lábios se curvaram em um sorriso sarcástico: "Esses quartos fedem."

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei