PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Jantar com a Maya foi a primeira pausa verdadeira que fiz em dias.
Ambas estávamos tão exaustas que nem nos demos ao trabalho de ir para casa e cozinhar, acabamos sentadas em um canto do refeitório da SDS, onde o aroma de cordeiro assado misturava-se com alho e alecrim.
Um murmúrio constante de vozes preenchia o espaço, vindo de estudantes, instrutores e até mesmo de alguns dos hóspedes que chegavam cedo das salas de jantar luxuosas do hotel.
A nossa mesa estava cheia de pratos: os da Maya estava abarrotado, enquanto os meus estavam pela metade.
Ela estava tão atarefada quanto eu, talvez até mais. Mas, agora, com as duas finalmente sentadas, havia algo quase eufórico na sensação de alívio.
"Por favor, me diz que não sou a única querendo esganar metade dos convidados," a Maya falou, espetando um pedaço de cordeiro com o garfo e apontando-o para mim como se fosse uma arma.
"Metade?" Levantei uma sobrancelha. "Você tá sendo generosa."
A risada dela ecoou sem nenhum pedido de desculpas, atraindo alguns olhares na nossa direção. "Tá bom, vai. Três quartos. Especialmente o seu 'amigo' Brynjar."
"Nem ouse chamá-lo de meu 'amigo'," murmurei, mexendo o resto do meu ensopado. Só de lembrar do deboche dele já me dava nojo.
"Ah, ele é um fofo," a Maya continuou, com o sarcasmo afiado. "A maneira como ele estufou o peito no saguão mais cedo... Por um segundo pensei que ele fosse dar um show. Você viu a cara dos lobos dele? Pareciam ao mesmo tempo apavorados e envergonhados."
Não consegui conter que um suave sorriso surgisse nos meus lábios. "Pessoas como ele adoram humilhar os outros. No entanto, ele mais parece uma criança que não ganhou o doce que queria."
Maya se inclinou para a frente, ampliando o sorriso. "E você, lá, fria como gelo. Caramba, Sera. Esperei anos pra ver alguém colocar a Shadow Claw no lugar dela, mas não achei que seria você."
As palavras dela aqueceram até os dedos dos meus pés. A dúvida tinha sido minha sombra por tanto tempo que as vitórias, por menores que fossem, ainda pareciam surreais.
"Não foi só por mim," admiti. "Foi pela Judy também. Ela teria levado a pior se eu não tivesse dito nada."
"Pois é, a Judy," disse Maya, suavizando o tom. "Aquela garota tem mais fibra do que as pessoas imaginam."
Comemos em um silêncio confortável por um tempo, ouvindo apenas o tilintar dos talheres e as risadas ocasionais de uma mesa próxima.
Logo, a Maya voltou a falar, contando as suas histórias de guerra dos últimos dias: "Você acredita que um dos lobos da Seabreeze me perguntou," começou ela, incrédula, "se poderíamos instalar piscinas naturais na suíte deles pra 'adequar o ambiente'. Piscinas naturais, Sera. Com peixes! Como se o pessoal do hotel pudesse simplesmente criar um oceano sob encomenda."
Engasguei com o meu drink, rindo. "Por favor, me diz que você respondeu que sim."
"Eu disse que claro, desde que eles não se importassem com caranguejos subindo na cama à noite." Maya sorriu maliciosamente. "A expressão no rosto deles..." A risada dela produziu um som engraçado. "Ah, como eu queria ter uma câmera!"
Balancei a cabeça, divertindo-me. "Você é terrível."
Ela inclinou a cabeça. "Obrigada."
Entramos em um ritmo de trocar histórias de pedidos absurdos, rir da arrogância do Brynjar e desabafar sobre o fluxo interminável de hóspedes.
Mas, entre as piadas, a conversa ficou mais séria.
Ela se recostou e o seu olhar ficou mais aguçado. "Você sabe por que tanta gente se inscreveu pra participar do Torneio esse ano, certo?"
"Porque é a décima edição?" arrisquei.
"Parcialmente sim." Ela abaixou a voz, mesmo que o barulho ao redor tornasse o gesto desnecessário. "Mas o Lucian tá planejando uma coisa. Um prêmio."
Franzi o cenho. "Um prêmio?"
"Mmhmm. Ele ainda não anunciou o quê é, nem mesmo pra mim. Mas, pelo que eu descobri, é algo grande. Tipo, algo que pode mudar tudo. Ele quer colocar a SDS no mapa de uma forma que ninguém possa ignorar."
As palavras mexeram comigo. "É por isso que os hotéis estão lotados."
"Exato." Maya começou a contar nos dedos. "Metade dos lobos são apenas curiosos, esperando pra ver se a gente boia ou nada. Trinta por cento já tá do nosso lado. E os últimos vinte?" Ela fez uma careta. "Vieram pra zombar, sabotar ou só assistir ao nosso fracasso."
A explicação dela pesou no meu peito. O Lucian sempre falava sobre construir algo que pudesse desafiar os velhos sistemas, mas ouvir os números assim me fez perceber o quanto a visão dele era arriscada.
Deixei o garfo de lado, sem apetite. "Ele tá apostando tudo nisso."
"Pois é." Maya tomou um gole da sua bebida. "E, se não der tudo certo, vão despedaçá-lo."
A franqueza dela doeu, mas era a verdade. Eu me recostei na cadeira, olhando as vigas do teto acima de nós.
A determinação acendeu dentro de mim como fogo em palha seca. Eu não podia deixar o trabalho do Lucian, o sonho dele, ser ridicularizado até desaparecer. Não depois de tudo que ele fez por mim. Não depois de me dar um lugar quando eu não tinha nenhum.
"Eu não vou deixar isso acontecer," murmurei.
Maya inclinou a cabeça, me estudando. Então, um sorriso suave apareceu nos seus lábios. "É, eu também não vou."
Já passava da meia-noite quando finalmente empurramos as nossas cadeiras para trás. Meus músculos doíam de cansaço, mas uma chama constante ardia dentro de mim. Eu estava pronta para fazer a minha parte.
Estávamos saindo para o ar fresco da noite quando o meu celular vibrou violentamente no meu bolso.
Um calafrio de apreensão passou por mim ao ver o identificador de chamadas.
Atendi imediatamente. "Judy? Tá tudo..."
A voz dela estava aguda e lotada de pânico. "Sera, por favor... eu não... juro, eu não peguei nada..."
Meu estômago se revirou e o cansaço sumiu. "Calma. O que aconteceu? Onde você tá?"
"No saguão do hotel," ela soluçou. "Eles... Eles estão dizendo que eu roubei eles. O Brynjar tá aqui. Ele... Ele não vai..." As palavras dela se embaralharam em um turbilhão de medo.
Eu não precisava ouvir mais nada. "Tô indo."
A expressão da Maya ficou mais atenta assim que desliguei o telefone. "O que aconteceu?"
"A Shadow Claw." soltei. "Estão acusando a Judy de roubo."
O palavrão dela cortou o ar da noite. "Claro que estão. Vamos logo."
Não nos preocupamos com o carro. Corremos, com o vento da noite cortando os nossos rostos e os nossos pés martelando o asfalto até chegarmos ao Grand Crest.
O saguão estava um caos quando chegamos.
Brynjar estava no centro, como um tirano conquistador, e a sua voz ressoava pelo salão. Judy estava encostada contra o balcão da recepção, pálida e trêmula, com os olhos arregalados de medo e humilhação.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei