PERSPECTIVA DO KIERAN
A onda se fechou sobre a Sera e, por um instante, eu congelei.
Um segundo, ela estava rindo, com os cabelos esvoaçando e as mãos desajeitadas, mas determinadas, na prancha. E, no segundo seguinte, o oceano a engoliu completamente.
"Sera!" Minha voz saiu do peito, áspera, mas o mar não se importou.
O grito do Daniel era mais agudo, mais alto. "Mãe!"
Mergulhei sem pensar, cortando a água como um reflexo. O sal fez os meus olhos arderem, mas não me importei.
Sempre confiei no mar. Era familiar, confiável, estável. Mas, naquele momento, parecia um inimigo, arrastando a Sera para o fundo, ávido por ela.
Quando a encontrei, seus cabelos flutuavam como fitas escuras ao redor do rosto, os olhos estavam fechados e os membros inertes. Muito parada. Muito quieta.
A visão me cortou como uma lâmina cirúrgica.
Não. A Sera não. Não assim.
Puxei-a para cima, meus braços se esforçando e pulmões ardendo enquanto a arrastava de volta à superfície. Senti a mão dela cravar no meu braço e teria suspirado de alívio se houvesse ar nos meus pulmões.
Cada segundo se esticava mais do que deveria, criando um atraso cruel entre a profundidade e o ar.
Quando cheguei à parte mais rasa, o Daniel já estava com a água até os joelhos e tinha pânico estampado no rosto.
"Pai, faz alguma coisa!" Sua voz falhou. "Ela não tá respirando! Faz respiração boca-a-boca!"
Deitei-a na areia, meu peito arfando, enquanto o dela permanecia imóvel. Sua pele estava fria e os seus lábios pálidos.
"Sera, por favor. Volta pra mim."
Minhas mãos tremiam enquanto eu inclinava a cabeça dela para trás e hesitei ao pairar sobre os seus lábios, lembrando da última vez que nos beijamos: o sabor dela, a maneira como os seus lábios amoleciam sob os meus...
Mas isso não era um beijo, claro que não, mas o meu corpo não se importava.
Desespero, calor e lembranças se chocavam dentro de mim.
"Por favor, Pai!" O terror cru na voz do Daniel me trouxe de volta à realidade. "Salva ela!"
Sem me dar mais tempo para hesitar, me inclinei para frente, selando os meus lábios sobre os da Sera. Eu forçava freneticamente o ar a entrar nos seus pulmões, rezando para que ela aceitasse, para que voltasse para nós.
Os lábios dela eram mais macios do que eu me lembrava e mais quentes, mesmo contra o frio do oceano.
'Foco, droga!'
Após duas respirações, recuei e pressionei minhas palmas com força contra o peito dela em um ritmo instintivo, contando trinta compressões firmes e desesperadas em voz baixa, tentando fazer com que o coração dela respondesse.
Quando ela não reagiu, inclinei a sua cabeça para trás e pressionei minha boca sobre a dela novamente.
'Por favor,' implorei internamente enquanto soprava ar nela. 'Eu não posso te perder, Sera. Não assim.'
Daniel pairava ao meu lado e perguntou, com a voz trêmula: "Tá funcionando? Pai, tá funcionando?"
"Me dá um segundo," murmurei, meu coração batendo tão violentamente que pensei que poderia explodir. Pressionei a minha boca contra a dela novamente, empurrando com mais força e lutando contra o terror que me consumia.
Então... ela tossiu. O som foi violento, molhado, vivo, e eu nunca ouvi nada tão lindo na minha vida.
Água jorrou dos lábios dela, respingando na minha bochecha, e o alívio foi tão intenso que quase me fez desabar.
Antes que eu pudesse evitar, segurei o rosto dela entre as minhas mãos, passando meus polegares pelas gotas frias que se agarravam à pele dela.
"Sera," eu suspirei, minha voz soando desgastada e rouca.
Os cílios dela tremeram e seu olhar estava turvo e desfocado enquanto piscava para mim.
Por um momento, parecia que o mundo se resumira a apenas nós dois. O frágil respirar dela contra as palmas das minhas mãos, o tremor da vida voltando a sacudir o seu corpo e a esperança insuportável crescendo no meu peito.
Os lábios dela se entreabriram como se ela fosse falar, mas percebi a confusão percorrendo o seu rosto e o meu coração se apertou com a visão.
Meu nome pairava na ponta da língua dela, ou talvez fosse apenas desejo meu. Eu queria que ela se apoiasse em mim, que se agarrasse a mim como tinha feito na água, que precisasse de mim nem que fosse por um momento.
Mas a clareza voltou aos seus olhos como um estalo de chicote. Ela se enrijeceu debaixo de mim e as suas mãos tremeram enquanto empurrava fracamente o meu peito.
A rejeição foi pequena e hesitante, mas firme.
"Tô bem," ela arfou, tossindo novamente e se arrastando para sentar, mesmo com o corpo trêmulo.
"Mãe!"
"Danny..."
Ele envolveu seus braços ao redor dela com força. "Ah, eu tava tão assustado, Mãe."
Agora, ela estava à mesa, arrumando colheres de servir como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Seu cabelo ainda estava úmido, eu só não sabia se com a água do oceano ou do chuveiro, mais escuro nas pontas que tocavam os seus ombros. Ela tinha trocado a blusa por outra também em um tom suave e usava shorts contra a pele dourada pelo sol da manhã.
A refeição estava... exagerada. Peixe grelhado, temperado exatamente como o meu pai gostava, com limão e pimenta. Uma salada com nozes torradas e cranberries, a favorita da minha mãe.
Até o arroz tinha as cebolas crocantes que o Daniel adorava mastigar.
E, para mim, um filé mal passado, exatamente como eu preferia, embora ela já tivesse me dito que não suportava ver o sangue vermelho no prato.
Por um momento, ninguém falou. Meus pais trocaram olhares que eu não consegui decifrar.
Daniel, claro, quebrou o silêncio, batendo palmas e pulando na cadeira.
"Mãe, você fez tudo isso?!" A voz dele demonstrava pura empolgação.
Ela deu uma risadinha. "Ei, você disse que tava com saudades da minha comida."
"Mas você não precisava cozinhar pra gente também, querida," minha mãe disse suavemente.
Sera deu os ombros sem olhar para ela, ocupada em servir água de coco para o Daniel no copo com o canudo de golfinho dele.
"Velhos hábitos custam a morrer, eu acho."
Uma lembrança desagradável surgiu na minha mente: o aniversário do Daniel, a Sera se matando na cozinha para preparar sete pratos diferentes para agradar ao gosto peculiar de cada um. Nenhum 'obrigado' em troca. Meu peito apertou.
Daniel sorriu, radiante: "Podemos comer agora? Por favor?"
"Claro, querido."
Me peguei olhando para as mãos dela enquanto ela servia primeiro o prato dele, certificando-se de que estivesse colorido e equilibrado. Ela sabia que só assim ele ficaria na mesa tempo suficiente para comer tudo.
Entretanto, ela nem sequer olhou para o meu lado enquanto se movia em torno da mesa, silenciosa, graciosa, cuidadosa e evitando ocupar muito espaço. Isso me afetou mais do que eu esperava.
Durante anos, me permiti acreditar que ela era fria, distante e que sentava à minha mesa por obrigação, não por carinho. Mas, ao observá-la agora, lembrei de como eu costumava ignorar esses detalhes e de como ela tentou fazer a mesma coisa antes, atender as preferencias de todos, e nunca reconheci o gesto. Recordei também de como ela tentava se aproximar de mim se envolvendo nas atividades da Alcateia, mas eu não observei o seu esforço na época. Talvez eu não quisesse ver.
Daniel comia barulhentamente, cantarolando de satisfação enquanto mastigava. Meu pai, na verdade, sorriu. Minha mãe murmurou um agradecimento. E eu? Eu me peguei segurando o garfo como se fosse a única coisa mantendo-me firme. Porque a verdade era inevitável: a Sera não apenas preparou o almoço, ela nos lembrou, sem uma palavra, do lugar que sempre mereceu nesta mesa, nesta família.
E fui eu, sempre eu, quem negou isso a ela.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei
Finalmente toda a verdade do Lucian veio à tona. Só não faz sentido ele saber antes de qualquer pessoa (inclusive família) que a Zara era prima. Cadê a tia irmã de Margareth então? Porque Sera e Margareth foram mais importantes para Catherine do que esse outro braço da família?...
Quero saber até onde o Lucian estar envolvido com Katherine e Marcos...
Ok, sera não aceitar o vínculo. Agora deixa o Kieran seguir a vida dele em paz...
Tá muito bom os capítulos...
Preciso de ajuda pra comprar moedas, não consigo completa minha compra...
Sera era uma bobinha manipulada e do nada se tornou fodona. A autora exagerou demais. Comecei a ler uma romance onde o começo imita uma história que já existe e depois, a autora acrescentou "os mutantes" na história. Kkkkk Mas os capítulos que abrem essa história nada mais é do quem o plágio de uma história que já existe. A irmã, o marido que gosta da irmã, a noite em que a irmã errada dorme com o cara, casa com ele tem um filho. O divórcio e só depois ele começa a gostar dela... Enfim, copiou na cara dura....
Livro muito bom!!! Sem muita enrolação e historia com enredo e fluxo. Aguardando próximos capítulos e o encerramento breve!!!...
SERAPHINA é muito fraca e idiota,Catherine manipula ela fácil fácil, eu ia lá se sacrificar por uma pai uma família que sempre me tratou mal, eles que se virem...
Escritora por favor, melhora isso aí, Sera fez o ex marido comer o pão que o diabo amassou, botou homens na cara dele, agora a cobra da irmã dela baixa o espírito de Santa e Sara na primeira oportunidade já vai abraçar, me poupe, mais criatividade por favor...
Quando Sera vai descobrir a peste falsa e manipulador que lucian é?? Ele ainda foi embora com o amor da vida dele e ainda deixou a Sera responsável pelos negócios dele, Sera é muito idiota,...