PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Daniel estava aconchegado nos meus braços quando eu o cobri mais tarde naquela noite.
"Mãe?" Sua voz era suave, quase um sussurro. Os cílios dele tremulavam como se ele já estivesse meio adormecido, mas eu conhecia o meu filho: sua mente não descansava facilmente.
"Sim, meu amor?" Alisei o seu cabelo, precisando mais da regularidade do movimento do que ele.
"Você tá bem?" Seus olhos escuros se abriram, grandes e curiosos.
A pergunta me atingiu mais fundo do que eu esperava, apertando a dor que carreguei o dia todo.
Hesitei. Minha garganta ainda estava irritada por causa da água que eu havia engolido no momento em que tudo ficou escuro sob o mar.
E, por trás das minhas costelas, meu coração continuava a repassar os segundos aterrorizantes entre afundar na água e acordar na praia, aninhada sob o Kieran e com a sua boca pressionada contra a minha.
A lembrança queimava como uma marca. A maneira como a respiração dele tinha corrido para dentro de mim e como as suas mãos tremiam, como se ele temesse me perder.
Empurrei essa memória para o fundo da mente, de forma que o Daniel não pudesse ver os sentimentos através dos meus olhos.
"Tô bem", eu disse a ele, a mentira com gosto de sal do oceano. "Só um pouco abalada, querido."
A boca dele curvou-se em um sorriso sonolento. "Que bom. Porque eu não gosto quando você me assusta assim."
Ri baixinho, embora o som tenha saído quebradiço. "Vou tentar não fazer disso um hábito."
Ele estendeu a mão e segurou a minha. Seus dedos eram pequenos, mas fortes, e o aperto teimoso tinha sido herdado do pai.
"Você ficou com a gente o dia todo," murmurou, já se entregando ao sono. "Foi demais."
Meu coração apertou. Ele não estava errado. Apesar da quase tragédia, o resto do dia foi algo raro, algo bonito.
Eu nunca tinha participado das férias da família Blackthorne antes. Eles sempre iam sem mim, só o Kieran, o Daniel, a Leona e o Christian, o retrato perfeito.
E eu? Eu era a mãe invisível, a sombra deixada para trás, a mulher cuja ausência parecia passar despercebida.
Mas hoje tinha sido diferente.
A risada do Daniel ecoava pela praia, mais brilhante do que o canto das gaivotas. Ele fez questão de mantermos distância do oceano, mas me puxou da sombra para me mostrar as conchas. Construímos castelos de areia, perseguimos caranguejos e o Kieran até deixou que o enterrássemos até os ombros na areia.
E, apesar da tensão persistente entre o Kieran e eu, a alegria do Daniel se espalhou como fogo, envolvendo até a Leona e o Christian no seu brilho.
Pela primeira vez, não me senti como uma estranha na minha própria família.
Abaixe-me e beijei a testa do Daniel, demorando mais do que pretendia. "Durma bem, meu amor."
Ele suspirou e observei o seu peito subindo e descendo em um ritmo constante enquanto ele finalmente se entregava ao sono. Soltei a minha mão da dele e me levantei, o suave ranger do colchão marcando a minha retirada.
A villa estava silenciosa enquanto eu caminhava pelo corredor e uma brisa morna passava pelas janelas abertas, carregando o cheiro salgado do mar.
Eu ainda estava perdida em pensamentos, revivendo a estranha e vertiginosa colisão de alívio e humilhação que vivi naquela praia, quando uma voz me surpreendeu.
"Seraphina?"
Virei-me e levantei a guarda instintivamente. Leona estava no final do corredor, com um xale solto sobre os ombros e o rosto inexpressivo.
"Sim?" Perguntei cautelosamente.
Ela fez um gesto em direção à sala de estar, especificamente um canto tranquilo com cadeiras de vime branco e uma mesa baixa com um chá intocado. "Você tem um momento? Gostaria de... conversar com você."
Cada instinto meu gritava 'Não!' As conversas anteriores com a Leona sempre terminaram comigo questionando o meu valor e lutando para conter as lágrimas. Mas a cortesia, ou talvez o cansaço, me fez acenar com a cabeça. "Tudo bem."
Eu a segui até a sala e senti o ar pesado com o aroma de hibisco e jasmim vindo do jardim lá fora. Sentamos de frente uma para a outra, mas o espaço entre nós parecia mais largo do que o oceano.
Por um momento, nenhuma de nós falou.
Então, a Leona quebrou o silêncio, com a voz suave: "Eu queria saber como você está. Depois do que aconteceu esta manhã. Foi assustador."
Eu pisquei. Preocupação genuína? Vinda da Leona?
"Bem, tenho como um princípio não morrer afogada," eu disse secamente. "Mas tô me virando."
Os lábios dela se curvaram, quase resultando em um sorriso. "Você sempre dá um jeito."
Eu coloquei as mãos no colo, cautelosa. "Mais alguma coisa?"
Ela me olhou por um longo momento, então acenou lentamente com a cabeça. "Sim. Eu queria te dizer... O Daniel é um menino notável. Brilhante, gentil, centrado. Você fez um trabalho maravilhoso com ele, Seraphina."
O elogio caiu como uma pedra jogada na água parada e criou ondas que desestabilizaram tudo dentro de mim.
Meu primeiro instinto foi de desconfiança, até porque a gentileza da Leona, tão rara quanto uma lua azul, sempre vinha com um porém.
Meu segundo instinto foi algo que eu não queria nomear, algo perigosamente próximo de um lamento. O quanto a minha vida teria sido mais fácil se apenas uma das figuras maternas nela tivesse me tratado com gentileza, em vez de desprezo?
"Obrigada," eu disse, rígida. "Mas as características do Daniel são mérito dele."
Leona balançou a cabeça. "Não diminua o que você ofereceu a ele. Está claro. A maneira como ele te olha, como ele se porta... Ele sabe que é amado."
Eu me mexi desconfortavelmente e entrelacei as mãos. Isso era estranho demais, parecia que ela queria me desarmar.
Eu pensei em me levantar e inventar uma desculpa sobre estar cansada. Mas, antes que eu pudesse executar o meu plano, ela continuou.
"Também ouvi," ela disse com cuidado, "que você... pode ter alguém novo na sua vida."
Minha mandíbula se apertou. Claro. Lá estava a verdadeira razão para essa conversa na calada da noite.
Nem fiquei surpresa que ela tivesse conseguido essa informação de alguma forma. Suas fontes eram ilimitadas, talvez o próprio Kieran tenha contado a ela.
Pensando bem, a ideia do meu ex-marido e da minha ex-sogra discutindo a minha vida amorosa era mais inquietante do que essa conversa.
Os olhos da Leona buscaram os meus. "Se isso é verdade, então fico contente. De verdade. Você merece ser feliz. Você merece apoio. Amor. Espero que dê certo pra você, Sera."
Soltei um suspiro, agudo e sem humor. "Me perdoe se não pulo de alegria ao aceitar seus votos."
As sobrancelhas dela se uniram. "Por quê?"
"Porque," eu disse secamente, "nós duas sabemos o que isso significa. Você tem medo de que eu volte para o Kieran. Você tem medo de que a minha presença aqui signifique algo que não significa. Deixe-me poupar sua ansiedade: não tô aqui para reconquistá-lo. Eu segui em frente. Tenho amigos. Tenho alguém que se importa comigo. Minha vida agora é muito melhor do que era quando eu era a esposa do Kieran. Tô feliz agora. Plena."
O rosto da Leona se endureceu, mas eu não parei de falar. As palavras, uma vez começadas, saíram como uma maré que eu não conseguia conter.
"O único laço entre a sua família e eu agora é o Daniel. Só isso. Quaisquer escolhas que o Kieran faça sobre o futuro dele, sobre com quem ele quer se casar ou começar uma nova família... nada disso é da minha conta. Eu não vou me intrometer. Eu não vou interferir. Eu superei."
VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei