PERSPECTIVA DO KIERAN
O sol ainda não tinha surgido completamente no horizonte quando amarrei os meus tênis de corrida. O ar ainda estava denso com os resquícios da noite e o aroma da água salgada pairava sobre a ilha. Correr sempre foi o meu jeito de processar pensamentos, um ritmo para buscar clareza e esvaziar a cabeça antes que o caos do dia exigisse a minha atenção. E os deuses sabiam que eu precisava de uma mente clara depois dos últimos dias.
Saí silenciosamente da villa, tomando cuidado para não incomodar ninguém que ainda estivesse dormindo. Minha mãe provavelmente já teria saído para a sua habitual caminhada matinal, mas eu sabia que o meu pai e o Daniel estariam dormindo até o sol subir alto no céu. Eu os invejava, desejando poder me entregar ao esquecimento do sono. No entanto, meus pensamentos se recusavam a descansar.
As palavras da Sera na noite passada ecoaram, repetitivas e castigantes: 'Eu segui em frente'. Ela tinha seguido em frente e, mesmo assim, o simples som da sua voz ecoando no corredor parecia como uma corda amarrada ao redor do meu peito.
Expirei profundamente ao sair da villa e deixei o ar fresco da manhã encher os meus pulmões. Afastei a lembrança, concentrando-me no ritmo dos meus passos, na cadência constante do meu coração e no pulsar da terra sob mim.
Meio quilômetro depois, avistei-a. Sera. Correndo ao longo da curva da praia que passava pela villa. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo frouxo e o suor já brilhava na sua pele beijada pelo sol. Os passos dela eram determinado, mas cautelosos, e os olhos ocasionalmente observavam a areia e as ondas.
Meu coração disparou e uma mistura de deleite e frustração me invadiu. Ela tinha atormentado tanto a minha mente na noite anterior que eu não consegui dormir. Agora, a minha tentativa de esvaziar a cabeça tinha sido interrompida pelo exato motivo pelo qual eu precisava limpá-la.
Uma parte de mim, a parte sensata e lógica, me dizia para dar meia-volta, retornar para a villa e evitar o que inevitavelmente seria mais um confronto.
Mas a parte imprudente e ousada de mim, que vinha assumindo o controle lentamente, queria ficar.
Eu não era estúpido a ponto de me aproximar dela, mas…
Eu dizia para mim mesmo que deveria continuar para mantê-la segura. Afinal, da última vez que saiu para se exercitar em público, ela levou um tiro.
Sim, eu ficaria atrás dela, silencioso, invisível, garantindo que ela estivesse a salvo.
Ajustei o meu ritmo, mantendo uma distância cuidadosa.
Aparentemente, ela não tinha me notado e seguia perdida no seu ritual matinal, com o sol iluminando o contorno da sua mandíbula, o mexer suave dos seus ombros e a sua respiração ajustada ao ritmo das suas pernas.
Meus pulmões queimavam quando eu me forçava a desacelerar. Eu não estava acostumado a um ritmo tão tranquilo e podia sentir o Ashar incomodado, querendo correr mais depressa.
Mas eu gostava desse ritmo.
Se eu me permitisse ser um pouco mais iludido, poderia fingir que a Sera e eu estávamos correndo lado a lado, aproveitando o nascer do sol e saboreando a serenidade pontuada pelo sussurro das ondas e o distante grito das gaivotas.
E então aconteceu.
Um movimento chamou a minha atenção e, antes que pudesse entender o que era, antes que pudesse alcançar a Sera, a cobra atacou.
Foi rápido, um raio venenoso de bronze surgindo da grama à beira da praia. Suas presas afundaram no tornozelo dela antes que ela percebesse o que estava acontecendo.
Um grito agudo e surpreendido cortou a manhã e me atravessou diretamente.
Meus pés martelaram contra a areia e a adrenalina acendeu cada fibra do meu corpo.
"Sera!" gritei, correndo os últimos metros. Ela tentou puxar a perna e vi pânico e medo estampados no seu rosto.
Eu a alcancei e segurei o seu braço com as mãos, estabilizando-a. A cobra recuou com a interrupção repentina, me dando tempo necessário para agir.
Meus instintos entraram em ação. Anos de treinamento sobre como controlar as respostas instintivas de Alfa se misturaram com a urgência crua e pura do momento.
Agarrei a cobra e, com um movimento forte do pulso, a joguei para o lado. Ela bateu em uma pedra, fazendo um barulho nauseante, e fluido se espalhou enquanto escorregava ao chão, imóvel.
Minha atenção se voltou imediatamente para a Sera quando os seus joelhos cederam e ela deslizou para o chão. Ainda sustentando meus braços ao redor dela, puxei-a para mim, alcançando sua perna ferida.
"Ai," ela gemeu, com o rosto contorcido de dor.
"Merda," murmurei, ao olhar para o ferimento.
Duas pequenas marcas de perfuração brilhavam na pele dela, cercadas por um halo de vermelhidão. Pequenas gotas de sangue se agarravam às bordas, quase imperceptíveis, mas o inchaço já tinha começado a despontar em um abaulamento sutil que indicava o veneno se espalhando.
"K-Kieran..." ela balbuciou, com a voz trêmula.
Cerrei os dentes, lutando contra a onda de medo que me invadia. "Tá tudo bem, Sera. Eu tô aqui, aguenta firme."
A perna dela tremia sob a minha mão enquanto eu me inclinava mais perto. Eu conseguia ver a pele começando a arroxear onde o veneno estava iniciando a sua progressão insidiosa, como um alerta silencioso do que aconteceria se eu não agisse imediatamente.
Meu coração batia forte no peito e o meu corpo reagia violentamente à vulnerabilidade dela, ao pensamento dela em perigo.
Eu sabia que tipo de cobra era aquela e sabia que o veneno a paralisaria dentro de minutos se não fosse tratado.
Sem hesitar, pressionei os meus lábios sobre a picada, sugando com cuidado e sentindo o gosto metálico do sangue e o toque agudo do veneno.
O suspiro de choque da Sera, o tremor no seu corpo... Nada importava além do meu foco singular de salvá-la.
Mesmo enquanto eu fazia isso, não pude evitar os pensamentos que corriam pela minha mente: como ela parecia frágil naquele momento, o quanto ela dependia de mim mesmo odiando saber disso e como eu nunca deixaria nada machucá-la novamente.
"Não se mexa," murmurei entre as respirações. "Só mais um pouco."
A mão dela apertava o meu ombro como garras de medo cravando na minha pele, mas ela não reclamou.
Senti a pulsação dela sob os meus lábios, batendo descontroladamente com o pânico e a adrenalina.
Meu próprio corpo tremia com o esforço, mas me recusei a parar até ter certeza de que o veneno estava completamente fora do corpo dela.
Finalmente, afastei-me e cuspi uma última vez na areia antes de limpar a boca com as costas da mão.



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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei