Daniel torceu a boca em pura confusão.
O patrão já não sabia o contato da Srta. Alice de cor e salteado? O acordo de divórcio arranjado pelo velho Alberto exibia os números telefônicos escancarados na folha.
Ah, claro.
Sobre a oficialização do divórcio, o Sr. Alberto proibira que o patrão informasse que a intervenção viera dele.
Portanto, o patrão agora precisava cavar um pretexto natural para estabelecer contato constante no futuro.
Alice fitou a tela do celular por longos segundos e, sucumbindo à exigência, começou a digitar o seu número.
Assim que a tarefa findou, devolveu-lhe a máquina.
— Está bom assim?
Sebastião deslizou os olhos sobre a tela luminosa antes de bloqueá-la.
— Hm. Tudo certo.
Alice não gastou mais o ar. Entrelaçou os dedos nos de Sara e zarpou com firmeza rumo às trevas, negando até o mais simples aceno de despedida a Sebastião.
— Ei, Srta. Alice... — Daniel fixou os olhos nas costas que recuavam de forma insensível e estalou a língua. — Não custava nada dar tchau.
Sebastião desviou a atenção e marchou direto rumo à lataria do carro, rosnando em tom ríspido:
— Que falta de educação.
...
Na manhã seguinte, ao alvorecer, Sabrina Saraiva despertou em sua maca hospitalar com a pele sem sangue.
Jorge passou a madrugada encostado naquela enfermaria e os sinais cruéis do cansaço já maculavam sua face primorosa.
— Professor Jorge, minha presença aqui destruiu as suas horas de sono hoje.
O semblante de Jorge não sofreu nenhum repuxo agressivo. Pelo contrário.
Sua mente repassou que, no fim, foi ele mesmo que cruzara as ruas rasgadas da madrugada e rearmou as fiações por si só até o gerador roncar e a vida ressurgir no ar, trazendo de volta o corpo dela sem deixar marcas de fumaça pelos corredores cruciais de pesquisa.
A cabeça de Sabrina caiu na borda da cama. Nas profundezas úmidas dos olhos rubros, sentimentos turvos borbulhavam ininterruptamente em silêncio.
O trinar estridente provindo do bolso de Jorge cortou as intimidades aconchegantes do momento paterno do leito.
E a voz animada e curiosa de Jonas transbordou pelo fone:
— Jorge, acompanhou os fatos da noite? Na virada das horas o herdeiro escroto da Família Figueiredo rodou feio nas garras da delegacia. Mas a porrada principal veio de manhã. A família cravou na imprensa que cortaram relações e excluíram o patife do círculo! Imagina! O patriarca sempre idolatrou o capeta em figura de filho, abafou mil incêndios antes pra ocultar. Dessa vez, foi um expurgo público fatal e no osso.
Jorge escutou tudo feito pedras. Sem os ares curiosos do colega de prancheta, aquelas fofocas sobre a elite eram um tédio para ele.
Mas Jonas engatava a quinta marcha.
— Mundo cão, né? Porque, ironia das ironias, cruzei o desgraçado horas antes, bem ali no balcão do bar! Se bobear ele ainda esbarrou no senhor enchendo o copo de uísque ali. O rádio peão diz que ele resolveu afiar as unhas e arrastar duas mulheres pros cantos nojentos das esquinas. Mas uma delas devia ser parente do inferno, porque forçou até o próprio Figueiredo pai se mijar de pavor até cortar o rabo do garoto no asfalto. Um osso atirado no inferno, senão o teto arrebentava em cima deles.
— O que me diz?! Ontem à noite, no bar, um Figueiredo assediou duas moças pelos cantos?! — As luzes se acenderam nas córneas de Jorge e o reflexo repentino do telefonema agonizante e dos gritos de Alice inundaram-lhe as paredes da mente na mesma hora.

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