Na enfermaria do hospital, assim que encerrou a chamada com Jonas, Jorge apertou os números para chamar Alice de imediato.
Na primeira tentativa, após uma espera prolongada e o bipe de desligamento automático preencher os espaços, nenhuma voz apareceu do outro lado.
Seu foco trancou o visor gelado, antes de arrancar a segunda tentativa das teclas.
No lençol limpo, Sabrina estudou o pulso tenso de Jorge e a pele da sua própria mão recuou o algodão num calafrio imperceptível.
Na mansão do Condomínio Monte Verde, Alice rodopiava os tachos no fogão esquentando o café matinal.
Aquele alvorecer inaugurava oficialmente suas artes culinárias desde o seu estabelecimento naquele teto isolado.
No passado restrito a essa liberdade, suas únicas alimentações ali resumiam-se a cascas descascadas de ovos e marmitas engorduradas em sacos plásticos.
Porém o raiar daquele dia merecia os caprichos. Sara Lima, a menina hóspede, passara a noite sob aquelas lajes.
A jovem Sara atravessou o limite da escadaria e as engrenagens sensoriais de cheiro logo a atraíram correndo rumo às bancadas.
— Puta que pariu! O que você armou no tacho, tia? Meu Deus, como tem cheiro disso! — A correria dela cessou sobre a mesa do mármore.
O sorriso de Alice formou uma pérola suave.
— Qualquer bobeira matinal. Vá para a sala de jantar que o vapor já vai baixar e eu te trago a tigela cheia.
Os muros gelados da residência anterior ainda a marcavam forte. Naquele espaço antigo, os homens engravatados da vida de Alice, Jorge Cavalcanti e Júlio, nunca admitiam encostar o calcanhar na fumaça grossa dos jantares e repudiavam o odor da fritura penetrando nas fronhas.
As cabeças de Sara balançaram firmes em objeção.
— Impossível que eu arrede daqui! É gostoso pra caralho!
Ao assumir as estacas no ladrilho, Sara ficou plantada ali sem se mexer, e seu olhar esfomeado fixou-se no que havia na frigideira.
— Mas me belisca, porque você nunca virou um grão de arroz pro teto na sua vida, tia! Aliás... foi aquele ano... eita... que ano foi?
A contagem das páginas corroeu os ossos do pensamento de Sara. Por fim as dobras desmancharam na desistência:
Dos cofres das revelações o que ecoava por Sara provinha do mestre de casa: seu próprio pai aclamou a deusa como o cérebro afiado dos gênios supremos.
A carreira encurtou as voltas, mergulhou como furacão na pós e cravou de honras diretas o recrutamento como cria do sábio absoluto Alberto Almeida!
Ao virar páginas do fundamental os adolescentes sangravam as pálpebras sob pressão letal enquanto ela respirava os calibres mortíferos de um altar intocável de veteranos.
No tempo sagrado ela morria atolada nos compêndios intelectuais absurdos e afiava projetos alheios ao sol ou chuvas.
E de repente o quadro atual de seu reflexo a transmutara à chef perfeita e silenciosa das cinzas.
A espátula travou na articulação esguia. As fuligens d’água da ebulição ofuscaram as pálpebras, cobrindo o oceano melancólico e nebuloso alojado na córnea.
O que havia perfurado suas membranas e destroçado sua espinha nesses anos...
A bigorna gigante de horrores calados trancou nos ossos e Alice fechou a língua para poupar a pupila tenra e focar num escape das poeiras sem respostas.

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