— O café já vai sair, vai levando a louça e os talheres pra mesa. — Alice esforçou-se por soltar num tom bem animado.
Sara, afinal, já era adulta e sabia ler a expressão dos outros. Sabendo que Alice não queria tocar no assunto e estava mudando de foco, aceitou com um sorriso. Pegou as tigelas e talheres, e foi para a sala de jantar.
Mal havia terminado de arrumar a mesa quando notou o celular de Alice brilhando sem parar, com alguém ligando ininterruptamente.
— Tia, o seu telefone está tocando. — Sara caminhou até ela com o aparelho e, solícita, apertou o botão para atender.
Alice, sem saber quem ligava, pegou o celular da mão da garota e o levou ao ouvido.
— Alô? Quem é?
— Quem é? — Do outro lado da linha, veio a voz gélida de Jorge Cavalcanti.
Naquele momento, Alice não tinha vontade alguma de escutar a voz de Jorge.
Ela ainda não havia esquecido. Na noite anterior, no seu instante de maior perigo e desespero, Jorge, seu marido perante a lei, havia desligado o telefone na sua cara de forma cruel e impiedosa, abandonando-a à própria sorte.
— Quer alguma coisa? — O tom de voz de Alice também esfriou imediatamente.
Chegando a este ponto, ela realmente não tinha mais nada a dizer a Jorge. Só queria esperar o papel do divórcio sair para poder cortar todos os laços e se distanciar daquele homem de uma vez por todas.
Na enfermaria do hospital, ouvindo a frieza e o distanciamento na voz de Alice, a respiração de Jorge pesou. Mas, num raro acesso de paciência, ele tentou se explicar:
— Alice, o prédio da empresa sofreu um apagão repentino ontem à noite, e a Sabrina ficou trancada no laboratório. A situação era crítica, eu precisava correr para lá.
Para a Alice de agora, não importava mais se Sabrina era valiosa para a empresa, ou se ela era importante para Jorge. Nada disso tinha relevância.
— Certo, entendi. — respondeu de maneira apática. — Mais alguma coisa?
Ouvindo a resposta monótona de Alice, Jorge perdeu o controle sobre suas emoções.
— Alice, eu não acabei de explicar? Por que você continua me tratando com essa atitude?


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Não Quero Mais Ser A Sra. Cavalcanti!