— Júlio, eu é que sou a sua mãe... — Sua voz saiu carregada de tremores.
— Eu não quero você como mãe! Eu quero que a tia Sabrina seja a minha mãe! Você é chata! Não gosto de você!
A respiração de Alice travou de novo. Ela jamais imaginara que o garoto que ela parira com tamanha dificuldade acabaria por detestá-la.
Sua sogra, Yara Inácio, aproximou-se num silêncio hostil e puxou a criança transtornada para si. Ao encontrar o olhar magoado de Alice, Yara vacilou em certo desconforto, mas as palavras que brotaram de seus lábios retalharam o ar como lâminas de gelo.
— Por que raios veio até aqui para se humilhar dessa forma? Volte para casa de uma vez, não continue a nos envergonhar desta forma. Eu digo isso pelo seu bem.
— Eu que estou me humilhando?
Alice soltou um riso sarcástico. Seus olhos perpassaram a sogra e estacionaram em Jorge; as lágrimas lutavam nas bordas de seus cílios, contidas a força pela barreira do orgulho.
Ela jurava que, após as deslealdades e rupturas de sete anos atrás, depois de se casar com Jorge, estabelecer a própria família e gerar o próprio filho, nunca mais estaria sujeita a abandonos.
Mas vira agora que, do começo ao fim, apenas a solidão estivera lhe fazendo companhia...
— Jorge Cavalcanti, eu peço o divórcio. — disse Alice em perfeita calmaria.
Sem surtos. Sem escândalos. Sem cobranças.
Após essas palavras, ela virou as costas e se retirou.
O coração de Jorge contraiu-se de modo repentino ao encarar as costas da esposa em retirada incisiva.
Aquela não era a mesma Alice que ele enxergara ao longo dos últimos sete anos.
— Alice... — Em movimento involuntário, ele levantou a perna menoscabando a própria inércia para persegui-la.
Nessa mesma hora, entretanto, um estalo ressoou às suas costas.
Era o Sr. Saraiva, cuja mão desabou em cheio contra a bochecha de Sabrina.
— Sabrina Saraiva, o que diabos significa isso?!
Com as mãos coladas ao rosto, a garota olhou com espanto aflito para Jorge. As especulações e julgamentos da plateia apagaram de vez qualquer cor de suas bochechas e esmagaram-lhe a respiração. Ela então revirou os olhos e despencou no chão, inconsciente.
— Papai, a tia Sabrina desmaiou!
Dentro do veículo, Daniel Duarte tentou domar os sustos e fixou-se na silhueta que acabara de desaparecer.
— Patrão, a moça que acabou de passar... Não era a jovem senhora? — Logo após falar, Daniel atentou à gafe e consertou: — Quero dizer, a Srta. Alice...
Afundado nos bancos traseiros do carro, um homem nobre mantinha os olhos petrificados na espiral feminina que minguava pelas sombras. Suas órbitas densas espelhavam o sigilo de uma cobra oculta na noite negra.
Confirmando que não estava enganado, Daniel retornou os olhos para Sebastião Santos.
— Patrão, a Srta. Alice parecia exausta. Acha que eu deveria checar o estado dela?
Sebastião recolheu o olhar, cerrou levemente os olhos e, após o ar congelar por alguns segundos, indagou em tom indiferente:
— Você não tem o que fazer?
As palavras saíram tão leves do homem, mas o peso do pavor era assustador.
Sem ousadia para maiores interjeições, Daniel imediatamente calou-se, reacendeu os motores e manobrou o pneu pelo caminho oposto, passando rente a Alice sem olhá-la de volta.

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