Ao escutar aquilo, Ximena caiu na gargalhada na mesma hora.
— O que alguém que não põe os pés num laboratório há sete anos poderia ter de útil para nos ensinar?!
— Dra. Xavier, não fale assim. A Diretora Almeida é recém-nomeada; é jovem, quer mostrar serviço, dá para entender o desespero dela. — Douglas intercedeu, passando panos quentes com um sorriso contido, lançando um olhar de canto para os demais na copa.
Ximena não se conformou.
— Sr. Holanda, o senhor é bonzinho demais. Roubaram o seu cargo de diretor, duvido que o senhor não esteja espumando de raiva por dentro!
Tanto Ximena quanto Douglas eram pesquisadores associados sêniores, as pedras angulares científicas do local. Pela hierarquia temporal, Douglas estava na casa há muito mais tempo. Quando Samuel acumulava o posto de Diretor do Centro de Pesquisa, eles engoliam em silêncio. Afinal, a capacidade física de Samuel tinha limites; cedo ou tarde, ele passaria a coroa.
E os únicos na linha de sucessão aptos a devorar aquele trono eram Douglas e Ximena.
No ecossistema do instituto, Douglas carregava a fama do pamonha diplomático. Vivia enfiado nas suas planilhas, com zero traquejo para lides administrativas predatórias.
Mas com Ximena era outro esquema. Ela escancarava sua volúpia de mando e competência em praça pública.
Logo, antes da infiltração paraquedista de Alice, Ximena já saboreava o cargo como a herdeira indiscutível do trono.
A tragédia que ela não contava era o bote fulminante nas suas costas por uma intrusa verde que caiu de gaiato.
Um veneno amargo que lhe dilacerava as vísceras, um insulto inadmissível.
Frente ao ferrão de Ximena, Douglas deu apenas uma risadinha amarela.
— Minha competência tem teto. O trono de diretor tem que ser de quem aguenta o tranco.
Ximena antecipou o covil frouxo daquele paspalho, virando a retina numa volta olímpica completa.
— E a tal Alice por acaso tem cacife pra isso?
O sarcasmo inundou sua voz num tom de riso cínico.
— Cantam aos quatro ventos que é a pupila brilhante intocável do velho Alberto Almeida. Se fosse toda essa deusa intelectual, teria sumido da face da terra por todo esse tempo? Basta olhar pra aquela cara de vagabunda sedutora pra saber os favores sujos que ela deve ter prestado pra conseguir esse cargo!
— Viram só o canil babão que o Samuel armou pra Alice hoje? Quando que ele desceu a esse nível pro nosso lado? Negar as maracutaias deles me custaria a minha sanidade!
Ao ouvirem os sussurros peçonhentos exalados pela mulher, as testemunhas contiveram os coros e endossos inflamados, no entanto, a mutação dos ares transparecia viva na coloração fúnebre das feições.
Que a solidão viúva calcinava o leito de Samuel era o boato maciço escancarado de todas as esquinas do cimento acadêmico. No torvelinho daqueles anos áridos, a falange de cortesãs ansiando o trono não era de poucas almas, só que as barreiras bélicas de suas negativas empalavam as devassas rumo às valas.
Até os delírios matrimoniais que despontaram da própria cachola ardilosa de Ximena para ofertar a virgem da própria irmã na pira cívica dele capotaram destroçados sob os coices retumbantes das patadas e broncas pesadas que mandavam seu espírito caçar pesquisa num microscópio.
Nas memórias corrosivas deste revés sangrento, ela suava de azia fúnebre e frustração aguda. Presenciar in loco o bajulamento babão ofertado pelo grandão à Alice, incinera seu bile azedo nas bordas cruas.
Percebendo que as línguas se afrouxaram para lamas fundas, e o gado sedento sorvia todas na goela, Douglas entrou em pânico cívico trucidando as amarras pra quebrar pauta.
— Mas puxando um novo fio, Dra. Xavier. Eu destrinchei teus relatórios científicos no mês rasgado, a flecha das inovações e diretrizes é estapafúrdia de brilhante! Se aquilo cristalizar a meta no papel prático, além das condecorações institucionais da matriz, não dúvido que o pódio federal lhe banhe numa cascata de louros no patamar régio!
Atingida pelo elixir vaidoso no orgulho cru, o veneno transmutou e a empáfia explodiu nas latifúndias do rosto de Ximena.
— Não passa de uma esmola de reles projeto científico comum.

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