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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 158

O corredor do hospital se estendia como um túnel interminável, iluminado pela luz clínica e cruel das lâmpadas fluorescentes. Cada passo de Carla ecoava contra as paredes brancas, um som metálico e solitário que parecia marcar sua fuga. O cheiro penetrante de antisséptico e desespero a envolvia, uma combinação que lhe revirava o estômago e trazia memórias que ela preferia manter enterradas.

— Carla! — a voz que a perseguia era mais suave do que ela lembrava, mas carregava a mesma autoridade que outrora a fizera sentir-se segura. Agora, soava como uma ameaça. — Por favor, espera!

Ela não diminuiu o passo. Seus saltos batiam no piso de linóleo com uma determinação feroz, até que seus dedos encontraram a maçaneta da porta de saída. Foi então que seus passos foram interrompidos, não por força, mas por um toque leve em seu braço. Um toque que, apesar de suave, queimou como ferro em brasa.

Ela se virou tão rápido que seu cabelo cortou o ar. — Tire a mão de mim! — sua voz saiu como um rosnado, baixa e perigosa.

Rafael, porque era ele, sempre seria ele, recuou, levantando as mãos em um gesto de rendição. A luz crua do corredor revelava cada detalhe de seu rosto: os mesmos olhos castanhos que outrora a fitaram com promessas, a mesma boca que mentira com tanta convicção. O jaleco branco parecia uma ironia cruel.

— Eu só quero conversar — ele disse, mantendo a voz baixa e controlada, o tom que ela lembrava tão bem, o tom que ele usava para acalmar pacientes e, aparentemente, para manipular amantes.

— Conversar? — o riso que escapou de Carla foi áspero e sem humor. — Depois de três meses de silêncio? Três meses em que você desapareceu como se eu nunca tivesse existido?

— Não foi assim — ele tentou, mas ela viu a sombra da culpa em seus olhos.

— Não? — ela deu um passo à frente, seu dedo indicador apontando para seu peito como uma arma. — De onde eu estava, parecia exatamente assim. Um homem casado, fingindo ser solteiro, se divertindo com a estagiária ingênua que acreditava em cada palavra que saía da sua boca.

Seu rosto perdeu um pouco da compostura profissional.

— Eu não estava me divertindo, Carla. Você sabe disso.

— Ah, eu sei — seus olhos brilhavam com lágrimas de raiva contidas. — Sei que você me dizia que me amava enquanto sua esposa estava em casa, grávida do seu segundo filho. Sei que jurou que ia se divorciar, que só precisava do momento certo. E eu, como a tola que era, esperei. Esperei até perceber que o 'momento certo' nunca chegaria.

— Eu ia contar para ela — sua voz era um sussurro agora, quase inaudível. — Você me conhecia, Carla. Sabe que eu não mentiria sobre algo assim.

Ela riu novamente, um som vazio e amargo.

— Você mentiu até sobre seu nome, Rafael. Ou devo chamá-lo de doutor Andrade? O nome que sua esposa conhece?

Ele engoliu em seco, seu olhar fugindo do dela pela primeira vez.

— Era para te proteger.

— Me proteger do quê? — sua voz subiu, ecoando pelo corredor quase vazio. — De descobrir que era a outra? De perceber que o homem por quem me apaixonei tinha uma família inteira em outro lugar? Que eu era apenas... um passatempo?

O silêncio que se seguiu foi mais doloroso do que qualquer gritaria. Rafael baixou a cabeça, seus ombros curvados sob o peso de verdades não ditas. Ele parecia, finalmente, o homem que ela lembrava, não o herói de suas fantasias, mas o ser humano falho que a destruiu.

— Eu me arrependo todos os dias — ele confessou, sua voz tão baixa que ela quase não ouviu. — Quando te vi esse hospital com sua amiga... não pude acreditar. Pensei que fosse algum tipo de sinal. Só queria uma chance para me explicar.

— Explicar o quê? — Carla cruzou os braços, sentindo o frio do ar condicionado contra sua pele. — Que agora é tarde demais? Que você destruiu minha capacidade de confiar em qualquer homem? Que transformou meu coração em um campo minado?

Ele deu um passo cauteloso em sua direção.

— Eu nunca quis te machucar.

— Mas machucou — suas palavras saíram como um sussurro quebrado, carregado de uma dor que o tempo não conseguira curar. — E a parte mais ridícula? Ainda dói. Ainda me perco em memórias do que poderia ter sido, mesmo sabendo que nunca foi real.

— Carla, espera — a voz de Rafael soou atrás dela, mas ela já estava se movendo.

— Preciso avisar a Olívia — ela disse, mais para si mesma do que para ele, antes de sair correndo de volta pelo corredor.

Seus saltos ecoavam como tiros enquanto ela corria, ignorando o chamado de Rafael. A porta do quarto de Olívia apareceu à frente, e ela a empurrou com tanta força que bateu contra a parede com um estrondo.

— Olívia! — ela gritou, ofegante, seu peito subindo e descendo rapidamente. — Liga a televisão! Agora!

Olívia, que ainda segurava Léo no colo, virou-se com os olhos arregalados. Helena levantou-se imediatamente, seu rosto alerta. O brilho azul da tela iluminou seus rostos quando a repórter repetiu a manchete:

— Incêndio nas docas Moretti, e testemunhas afirmam ter visto o que seria um herdeiro desaparecido, chamado de Alexander Kerkov, nas proximidades minutos antes do fogo começar.

O sangue pareceu gelar nas veias de Olívia. Seus dedos se apertaram involuntariamente nos ombros de Léo.

Ian. O irmão. E o fogo, sempre o fogo, consumindo tudo em seu caminho.

— Ele foi atrás dele — Carla sussurrou, sua voz falhando ao perceber a completa dimensão do que estava acontecendo. — Ian está caminhando direto para o inferno. E ele parece disposto a queimar junto.

Olívia não respondeu. Seus olhos estavam fixos na tela, na imagem do homem que, contra toda a lógica, contra todo o bom senso... ela amava.

E pela primeira vez desde que acordara no hospital, não sentiu medo. Sentiu algo muito mais perigoso: a certeza sombria de que algo terrível e inevitável havia começado, e que nenhum deles sairia ileso do que estava por vir.

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