Olivia abriu a boca para responder à última pergunta de Nicolau. Mas o som morreu na garganta. Apenas sustentou o olhar dele por um instante a mais do que o confortável.
Até que o estalo de uma porta se abrindo no corredor ao lado cortou aquele momento. Dois passos. Depois mais dois.
Benjamin e Clara surgiram do quarto ao lado, como se tivessem ensaiado a entrada. Ele, com o paletó nos ombros e aquele sorriso enviesado. Ela, com os olhos molhados, a expressão cuidadosamente moldada entre fragilidade e inocência.
O olhar de Nicolau mudou na hora. Da calma letal para um frio que congelava ossos.
Ele não olhou para Olivia de novo. Todo o peso dos olhos dele agora recaía sobre os dois.
— Pode ir. — Nicolau disse para ela, como quem decide o movimento seguinte de uma partida de xadrez.
Ela caminhou pelo corredor em passos firmes, mas por dentro parecia se despedaçar. Contava seus passos, rezando para o seu chão não desmoronar novamente.
Cada metro que se afastava do escritório parecia aliviar o peso no peito… Não olhou para trás. Não queria vê-los nem um segundo a mais. Iria seguir agindo como se eles fossem ninguém em sua vida.
Mas ela quase podia ouvir, o riso abafado de Clara, a arrogância tranquila de Benjamin.
Olivia acelerou o passo até sumir do alcance. Deixou-os para Nicolau.
— Vocês. — a palavra soou como uma sentença. — Entrem.
Benjamin trocou um olhar rápido com Clara. Entraram, mas mantiveram uma distância estratégica, como se a simples proximidade pudesse denunciar o que não queriam revelar.
Nicolau não ofereceu cadeira dessa vez. Não precisava.
O silêncio no escritório durou apenas o tempo de eles entrarem. Nicolau não se levantou, nem sorriu. Apenas observou.
Benjamin vestia o paletó como quem coloca uma armadura. Clara, com os olhos propositalmente úmidos, entrou um passo atrás dele.
— Fechem a porta. — a voz de Nicolau cortou qualquer tentativa de formalidade.
Benjamin obedeceu. Não entendia porque ele era tão sério, todo maldito tempo.
O velho Moretti serviu mais whisky para si, ignorando o barulho das mãos de Clara mexendo na barra do vestido.
— Vamos simplificar — disse, com a calma de quem está prestes a arrancar um segredo. — Vocês estão mentindo para mim sobre essa gravidez?
O ar ficou pesado. Clara foi a primeira a reagir. As lágrimas começaram a rolar, não em desespero, mas na medida exata para comover sem borrar a maquiagem.
Ela respirou fundo, a voz quebrada na medida certa:
— Nicolau… eu… eu realmente achei que estava. — a voz dela tremia de forma tão perfeita que dava raiva. — Estava atrasada, tinha todos os sintomas… — Ela deixou a frase morrer, como se a emoção a tivesse traído. — Eu só… ainda não fiz o exame, Mas eu… eu sinto que estou.
Benjamin colocou a mão nas costas dela, um toque calculado, como se estivesse protegendo uma flor delicada. Ele a mimava, a consentia, a fazia feliz. Porque com ela, tudo fluia de forma natural. Ela era a Bonnie para o seu Clyde. Despertava seu lado animal.
— O senhor acha mesmo que eu precisaria mentir sobre algo assim? — disse Benjamin, num tom indignado, mas sem perder a frieza.
Nicolau apoiou o cotovelo na mesa e girou o copo devagar, sem beber.
— Acho que as pessoas mentem por coisas menores do que um império. — falou, baixo, olhando diretamente para Benjamin. — Então me diga… há quanto tempo vocês se envolvem?
Benjamin hesitou. Clara olhou para ele, como quem espera o roteiro. Ele respondeu:
— Desde pouco depois de eu… me separar.
— Separar? — Nicolau arqueou a sobrancelha. — Engraçado. Achei que você nunca tivesse se casado oficialmente. Nunca ouvimos falar de nenhum casamento seu.
Benjamin ajustou a postura, incomodado.
— Não oficialmente… mas havia algo.
— Com Olivia. — Nicolau completou, seco.
Clara recuou um passo.
— Então, Benjamin… se isso for verdade… você acabou de assinar a sua sentença.
O olhar dele passou de Benjamin para Clara. Nenhum deles ousou falar.
Nicolau observou os dois, até que finalmente se virou, displicente, e os dispensou com um gesto simples da mão.
— Vão. — Sua voz era impassível.
Benjamin olhou para Clara, um olhar cúmplice e rápido, antes de acenar com a cabeça e se retirar. Clara o seguiu, mas antes de deixar o escritório, Benjamin parou na porta e lançou um último olhar a Nicolau.
Nada foi dito. Mas as palavras não eram necessárias. O que ele buscava já estava mais claro do que nunca.
Nicolau ficou ali, imóvel por um momento, o silêncio se espalhando pela sala como fumaça. Ele então pegou o telefone e pediu que seu assistente trouxesse os documentos antigos. A voz de Nicolau, mesmo abafada pela linha, era imperturbável.
— Traga os arquivos antigos para cá. Quero revisar tudo. — Sua voz era firme, como sempre. — Tem alguma coisa errada com esse meu bisneto. Sinto que Benjamin não é confiável.
— Entendido, senhor. Vou providenciar. — a voz soou do outro lado.
Nicolau ficou em silêncio por mais alguns instantes, observando o copo vazio sobre a mesa, refletindo sobre o que acabara de acontecer.
Enquanto isso, Benjamin voltava pelo mesmo corredor do escritório do seu avô. Havia deixado Clara na porta quando o seu taxi chegou.
Benjamin caminhava distraído, mas o tom sério da voz de Nicolau chamou sua atenção, através da porta fechada do escritório. Ele parou e se aproximou escutando com cuidado quando Nicolau continuou:
— Se eu descobrir qualquer um dos escândalos ou conflitos envolvendo ele ou o Ian, posso cortar a herança dos dois sem pensar duas vezes.
O coração de Benjamin disparou. Aquela ameaça era clara demais, e ele sabia que Nicolau não hesitaria.
— Então é assim? — Benjamin murmura, a raiva contida. — Antes que ele possa me tirar do testamento, eu sei quem vai cair primeiro. Olívia e Ian, o plano de guerra contra vocês acaba de ser arquitetado.
Benjamin se afasta, enquanto acende um cigarro ao planejar seu mais novo plano diabólico.

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