Ian estava encostado no parapeito da janela do quarto, o paletó jogado na poltrona e a gravata frouxa, como se aquela tarde tivesse drenado muito mais que o seu tempo.
E foi dali, que Ian observou quando Olivia atravessou o jardim com passos rápidos, como quem foge de um incêndio que ninguém mais vê.
A postura dela era reta, quase altiva… mas ele conseguia perceber a pressa. Podia ver os fardos que ela carregava.
O vestido dela balançava com o vento, mas a postura seguia ereta, como se estivesse calculando qualquer passo para não desmoronar.
Inconscientemente, Ian apertou o vidro da janela com os dedos. Irritação. E uma angústia que ele não queria nomear.
A cada passo dela, as perguntas apenas latejavam nele:
O que ela estava escondendo?
Por que esconder tanto?
O que havia naquela história que ela não podia dizer nem para ele?
Ainda que, sentia como se seus olhos fossem a porta para o universo inteiro e ele já soubesse de tanto.
Passou a mão pelo rosto, tentando empurrar o incômodo para o fundo, mas era inútil. Sentia a cabeça doer de tanto pensar nela.
O almoço inteiro rodada na sua cabeça como um filme mal editado: o olhar do avô, o sorriso venenoso de Benjamin, as respostas frias de Olivia.
Ian pegou o notebook, sentou-se à escrivaninha e tentou se afundar em planilhas, relatórios. Solitário, embora já fosse muitos anos assim. Mas não conseguiu se concentrar naquele dia, as linhas dançavam. Nada fixava. As palavras viravam borrões e ele não estava lendo nada.
Tudo que ouvia era o eco daquela resposta:
“O pai está onde deve estar: longe do meu filho.”
A porta do quarto estava aberta quando Matheus entrou sem bater, como sempre fazia, carregando uma pasta preta.
— Aqui está o que pediu. — colocou sobre a mesa, sem cerimônia. — Eu mesmo revisei antes de trazer.
Ian abriu aquele dossiê. Folheou devagar.
Foto. Nome completo. Faculdade. Primeiros empregos. O casamento.
Os olhos dele pararam ali. Benjamin Moretti.
Data do casamento. Data do divórcio.
Data de nascimento de Léo.
O ar pareceu pesar quando sentiu o peito apertar.
Fechou a pasta, mas ficou com a mão sobre ela, parado. Depois abriu de novo. Como se, olhando uma segunda vez, a matemática mudasse. Mas não mudou. A data do casamento de Olivia, batia perfeitamente como o tempo de nascimento do Leo.
Ian teve a sensação de que peças começavam a se encaixar, mas o quadro se tornou ainda mais nebuloso e isso deixava-o inquieto.
O rosto de Olivia lhe veio à mente. As imagens da discussão entre eles no escritório:
“Quem é o pai do Leo?”
E ela... Desviando. Sempre desviando quando ele perguntava sobre o pai do garoto.
Naquele momento, a raiva não se tornou só de Olivia. Ian ainda sentia o sangue ferver, a irritação pelo teatro que Benjamin tinha feito diante de Nicolau.
Ele se levantou, empurrando a cadeira para trás, e saiu do quarto decidido.
Encontrou Benjamin no salão inferior, encostado preguiçosamente na parede, mexendo no celular com a expressão de quem não tinha pressa para nada.
— A gente precisa conversar. — Ian disse seco, parando diante dele.
Benjamin ergueu os olhos, lento, e um sorriso torto apareceu.
— Sobre o almoço… ou sobre a sua noiva misteriosa?
— Você não sabe do que está falando.
— Ah, mas eu posso descobrir. — Benjamin deu um meio sorriso, inclinando a cabeça. — E aí… quem vai querer ficar no seu lado da mesa?
Por um instante, a tensão se tornava quase física. Os dois parados, olhando nos olhos um do outro.
Mas Ian recuou primeiro. Não porque perdeu. Mas porque sabia que Benjamin queria exatamente isso: arrancar a reação. O seu desespero.
Benjamin sorriu, satisfeito. Iria até o fim, até o circo terminar.
— Talvez eu só esteja dizendo em voz alta o que você não tem coragem de perguntar.
Ian o ignorou e se afastou, cada músculo pedindo para voltar e acabar com aquela conversa do jeito mais físico possível. Mas não.
Subiu as escadas de volta ao quarto, sentindo que Benjamin ainda o observava como um gato que já derrubou o copo e espera para ver o estrago.
Quando entrou, o quarto parecia mais abafado do que antes. Pegou o celular, já decidido a agir.
Mas antes que pudesse desbloquear, a tela acendeu sozinha.
Uma nova mensagem.
De Olivia.
Duas frases, curtas, cortantes:
O QUE VOCÊ FEZ?
O coração dele acelerou um meio segundo.
E pela primeira vez naquele dia, Ian não tinha certeza se estava prestes a descobrir… ou a ser descoberto.

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