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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 160

A manhã ardia.

O cheiro de fumaça, óleo queimado e sal se misturava no ar, espesso, quase sólido. As antigas docas dos Moretti, abandonadas há anos, agora eram um inferno em chamas.

O fogo subia em colunas vivas, refletido na água escura como se o próprio mar também queimasse.

Sirene sobre sirene.

Bombeiros gritavam ordens, o vento soprava cinzas sobre os uniformes, e os faróis dos carros piscavam como relâmpagos artificiais.

Ian saiu do carro antes que ele parasse por completo.

Matheus tentou segurá-lo.

— Ian! Espera! Eles disseram que ainda há explosivos nos contêineres!

Mas Ian já estava andando, o casaco batendo atrás de si, os olhos fixos no coração do caos.

Ele não ouvia nada.

O barulho do fogo, o estalo do metal cedendo, o grito dos rádios, tudo se apagava sob o rugido ensurdecedor dentro dele.

O mesmo rugido que o acompanhava desde o dia em que o irmão sequestrara Olívia.

O mesmo rugido que dizia: acaba com isso.

Os seguranças que vieram atrás não ousaram ultrapassar a linha invisível entre eles e o homem que caminhava para o próprio inferno.

Ian atravessou os portões tortos da estrutura principal.

A fumaça se adensava, o calor pulsava das paredes, e cada passo era seguido por estalos metálicos, vigas cedendo, contêineres rangendo.

E então, no meio do fogo, ele o viu.

O homem estava de pé sobre a passarela enferrujada, o reflexo das chamas dançando em seus olhos; olhos que, por um instante, pareciam os dele.

O mesmo olhar dos Moretti. Só que livre do controle, da máscara, da culpa.

— Eu sabia que você viria — disse o irmão, a voz ecoando entre as colunas. — Sempre foi previsível, Ian. Sempre o herdeiro obediente. O soldado de uma dinastia podre.

Ian ergueu o olhar, cada músculo em tensão.

— Enquanto você foi a sombra. Só que, no fim, toda sombra depende de luz pra existir.

O homem sorriu, inclinado na grade, o fogo refletido em seus dentes.

— Luz? — Ele riu, um som baixo e perigoso. — Li em algum lugar que Nicolau disse que você tinha talento pra poesia. Pena que nasceu sem coragem pra verdade.

— Verdade? — Ian avançou um passo, o calor queimando sua pele. — A verdade é que você tentou matar uma mulher inocente pra provar um ponto.

O sorriso sumiu.

— Inocente? — Ele deu um passo à frente. — Não existe inocente nesse império, irmão. Todo mundo aqui sangra por conveniência. Até ela.

Ele inclinou a cabeça, avaliando Ian com olhos frios.

— Você acha que ela não sabia o que era casar com um Moretti? Acha que não vendeu um pedaço da alma quando assinou aquele contrato?

Ian sentiu o estômago se revolver, mas manteve o controle.

— Eu não vim discutir Olívia.

— Claro que não — respondeu o outro. — Veio defender seu legado. O nome. A mentira que chamam de “família”.

O estalar de uma viga interrompeu o silêncio. Faíscas caíram sobre o chão de metal, formando pequenos círculos de fogo ao redor dos dois.

O irmão olhou ao redor, encantado.

— Bonito, não é? — murmurou. — O império queimando. Do mesmo jeito que ele me queimou quando mandou me esconder do mundo.

Ian respirava com dificuldade, o calor o sufocando.

Mas por trás da raiva, algo mais começava a se agitar, uma sensação que ele odiava reconhecer.

Pena.

— O que Nicolau te fez, eu não posso mudar — disse ele, com a voz baixa. — Mas o que você fez com ela, eu posso terminar.

O irmão o encarou por um longo instante.

E então riu; uma risada amarga, quebrada, quase triste.

— Você ainda acha que isso é sobre ela? Sobre o que fiz?

Ele ergueu o braço e apontou para os contêineres em chamas.

— Isso é sobre a verdade, Ian! Sobre o que os Moretti fizeram com todos nós! Eu sou o que restou quando o seu nome comprou o silêncio de uma vida.

A estrutura gemeu sob o peso do fogo, e uma parte do teto desabou atrás deles, espalhando fagulhas. O irmão não se moveu.

— Eu queimei o passado pra que o futuro não fosse igual — disse ele. — E agora só sobra você. O herdeiro. O escolhido.

Um espelho de tudo o que o sangue Moretti podia corromper.

Ele abaixou lentamente a mão.

— Não. Eu não vou te dar o prazer de morrer como uma vítima.

O irmão riu, um som curto, quase um soluço.

— Então morremos juntos.

Antes que Ian pudesse reagir, o chão tremeu.

A passarela estalou e começou a ceder.

O fogo subiu com força.

Ian se jogou para o lado, rolando entre as vigas.

O irmão desapareceu em meio à fumaça e às chamas.

E então; um grito.

Mas não o dele.

— Ian!

Ele se virou, o coração disparando.

Através da cortina de fumaça, uma figura surgiu, correndo entre bombeiros e policiais.

Cabelos soltos, o hospital ainda no corpo em forma de lençóis e curativos improvisados.

— Olívia...

Ela avançava contra o vento, contra as chamas, contra tudo; o olhar fixo nele.

Os bombeiros gritavam, tentando contê-la, mas ela escapava, movida por algo maior que o medo.

Por um segundo, o fogo pareceu recuar, como se até o inferno precisasse respirar diante do reencontro dos dois.

Ian ficou parado, o corpo coberto de fuligem e sangue, o olhar fixo nela.

E pela primeira vez, o caos ao redor se curvou ao caos dentro dele.

O destino, enfim, os colocava frente a frente, no centro do fogo que ambos haviam ajudado a acender.

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