A manhã ardia.
O cheiro de fumaça, óleo queimado e sal se misturava no ar, espesso, quase sólido. As antigas docas dos Moretti, abandonadas há anos, agora eram um inferno em chamas.
O fogo subia em colunas vivas, refletido na água escura como se o próprio mar também queimasse.
Sirene sobre sirene.
Bombeiros gritavam ordens, o vento soprava cinzas sobre os uniformes, e os faróis dos carros piscavam como relâmpagos artificiais.
Ian saiu do carro antes que ele parasse por completo.
Matheus tentou segurá-lo.
— Ian! Espera! Eles disseram que ainda há explosivos nos contêineres!
Mas Ian já estava andando, o casaco batendo atrás de si, os olhos fixos no coração do caos.
Ele não ouvia nada.
O barulho do fogo, o estalo do metal cedendo, o grito dos rádios, tudo se apagava sob o rugido ensurdecedor dentro dele.
O mesmo rugido que o acompanhava desde o dia em que o irmão sequestrara Olívia.
O mesmo rugido que dizia: acaba com isso.
Os seguranças que vieram atrás não ousaram ultrapassar a linha invisível entre eles e o homem que caminhava para o próprio inferno.
Ian atravessou os portões tortos da estrutura principal.
A fumaça se adensava, o calor pulsava das paredes, e cada passo era seguido por estalos metálicos, vigas cedendo, contêineres rangendo.
E então, no meio do fogo, ele o viu.
O homem estava de pé sobre a passarela enferrujada, o reflexo das chamas dançando em seus olhos; olhos que, por um instante, pareciam os dele.
O mesmo olhar dos Moretti. Só que livre do controle, da máscara, da culpa.
— Eu sabia que você viria — disse o irmão, a voz ecoando entre as colunas. — Sempre foi previsível, Ian. Sempre o herdeiro obediente. O soldado de uma dinastia podre.
Ian ergueu o olhar, cada músculo em tensão.
— Enquanto você foi a sombra. Só que, no fim, toda sombra depende de luz pra existir.
O homem sorriu, inclinado na grade, o fogo refletido em seus dentes.
— Luz? — Ele riu, um som baixo e perigoso. — Li em algum lugar que Nicolau disse que você tinha talento pra poesia. Pena que nasceu sem coragem pra verdade.
— Verdade? — Ian avançou um passo, o calor queimando sua pele. — A verdade é que você tentou matar uma mulher inocente pra provar um ponto.
O sorriso sumiu.
— Inocente? — Ele deu um passo à frente. — Não existe inocente nesse império, irmão. Todo mundo aqui sangra por conveniência. Até ela.
Ele inclinou a cabeça, avaliando Ian com olhos frios.
— Você acha que ela não sabia o que era casar com um Moretti? Acha que não vendeu um pedaço da alma quando assinou aquele contrato?
Ian sentiu o estômago se revolver, mas manteve o controle.
— Eu não vim discutir Olívia.
— Claro que não — respondeu o outro. — Veio defender seu legado. O nome. A mentira que chamam de “família”.
O estalar de uma viga interrompeu o silêncio. Faíscas caíram sobre o chão de metal, formando pequenos círculos de fogo ao redor dos dois.
O irmão olhou ao redor, encantado.
— Bonito, não é? — murmurou. — O império queimando. Do mesmo jeito que ele me queimou quando mandou me esconder do mundo.
Ian respirava com dificuldade, o calor o sufocando.
Mas por trás da raiva, algo mais começava a se agitar, uma sensação que ele odiava reconhecer.
Pena.
— O que Nicolau te fez, eu não posso mudar — disse ele, com a voz baixa. — Mas o que você fez com ela, eu posso terminar.
O irmão o encarou por um longo instante.
E então riu; uma risada amarga, quebrada, quase triste.
— Você ainda acha que isso é sobre ela? Sobre o que fiz?
Ele ergueu o braço e apontou para os contêineres em chamas.
— Isso é sobre a verdade, Ian! Sobre o que os Moretti fizeram com todos nós! Eu sou o que restou quando o seu nome comprou o silêncio de uma vida.
A estrutura gemeu sob o peso do fogo, e uma parte do teto desabou atrás deles, espalhando fagulhas. O irmão não se moveu.
— Eu queimei o passado pra que o futuro não fosse igual — disse ele. — E agora só sobra você. O herdeiro. O escolhido.
Um espelho de tudo o que o sangue Moretti podia corromper.
Ele abaixou lentamente a mão.
— Não. Eu não vou te dar o prazer de morrer como uma vítima.
O irmão riu, um som curto, quase um soluço.
— Então morremos juntos.
Antes que Ian pudesse reagir, o chão tremeu.
A passarela estalou e começou a ceder.
O fogo subiu com força.
Ian se jogou para o lado, rolando entre as vigas.
O irmão desapareceu em meio à fumaça e às chamas.
E então; um grito.
Mas não o dele.
— Ian!
Ele se virou, o coração disparando.
Através da cortina de fumaça, uma figura surgiu, correndo entre bombeiros e policiais.
Cabelos soltos, o hospital ainda no corpo em forma de lençóis e curativos improvisados.
— Olívia...
Ela avançava contra o vento, contra as chamas, contra tudo; o olhar fixo nele.
Os bombeiros gritavam, tentando contê-la, mas ela escapava, movida por algo maior que o medo.
Por um segundo, o fogo pareceu recuar, como se até o inferno precisasse respirar diante do reencontro dos dois.
Ian ficou parado, o corpo coberto de fuligem e sangue, o olhar fixo nela.
E pela primeira vez, o caos ao redor se curvou ao caos dentro dele.
O destino, enfim, os colocava frente a frente, no centro do fogo que ambos haviam ajudado a acender.

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